quinta-feira, 10 de maio de 2012



April was the cruellest month #5







Não gosto de misticismos. Ironicamente, o meu imaginário é povoado por redes complexas de associações líricas e mitológicas. Acredito em divindades improváveis, como os livros, as pedras, ou os girassóis. Gosto de pequenos rituais, em altares simulados, que espalho pela casa. Um frasco de vidro translúcido com flores, três pedras lisas no canto de um móvel, quatro conchas dispostas em arco, em redor de um objecto mundano. São os meus amuletos, os meus totens, a minha garantia de que é possível atravessar os dias em segurança, à margem do apelo dos velhos demónios. Porque gosto do sol, do mar, dos passeios nos lugares desabitados, do recolhimento dentro das histórias, cada um destes objectos me recorda de que o mundo não está em ruínas; que existe ainda o sol, o mar, os lugares pouco habitados e o conforto das histórias. Por causa de cada um destes objectos - o percurso matinal, desde o quarto à outra ponta da casa, "bom dia, concha", "bom dia, pedra", "bom dia, flor" - é possível respirar claramente, acreditar que em breve será possível correr para o exterior e sacudir o mofo do inverno agarrado aos ossos. A minha única religião é a do girassol e, por isso mesmo, não medito dentro de casa.


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posted by saturnine | 13:07 | 2 Comentários


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terça-feira, 23 de março de 2010



being idle #1


Se fosse enunciar alguns dos meus prazeres ociosos, a coisa passaria mais ou menos por escrever; comer cerejas durante todo o dia, sob todos os pretextos, como se não houvesse amanhã; cozinhar só para mim, quando não há mais ninguém por perto, requintadas refeições, como cogumelos Portobello recheados e gratinados no forno com folhadinhos de requeijão com espinafres e azeitonas; folhear livros de receitas apetitosas, com fotografias de fazer crescer água na boca, imaginando quão saborosas serão, mas que muito provavelmente nunca irei experimentar; ter um gato ao colo, afundando as mãos na sua barriga fofinha e felpuda, enquanto o seu ronronar me acalma e embala; passear em livrarias, escrutinando todas as estantes e todas as preciosidades, como se tivesse todo o tempo do mundo, mesmo que não tenha no fim de contas dinheiro para comprar nada; ficar deitada na areia da praia, de olhos fechados, sentindo um crescente rejúbilo enquanto o sol me aquece a pele, ouvindo ao longe os gritos das crianças a brincar, enquanto o cheiro do protector solar se mistura com o odor da maresia.

Este é um dos meus prazeres mais antigos. Situa-se bem enrarizado nas memórias afectivas da infância e transporta-me para os longos verões que passava na praia com os meus primos (que eram os meus irmãos, no final de contas), onde o ponto de encontro era sempre debaixo da bola gigante da Nivea (ainda hoje não sei, sendo a praia tão vasta, como é que toda a gente marcava encontro debaixo da bola da Nivea, e toda a gente se encontrava), onde fazíamos das toalhas turbantes e véus, e onde me lembro, desde sempre, de aprender aquilo que reencontrei continuamente nos poemas de Sophia de Mello Breyner, anos mais tarde: mergulhar, nadar, brincar nas rochas, sabendo que é com o sal do mar que se sacode a poeira do desencontro e se parte em busca da límpida medida.





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posted by saturnine | 16:50 | 4 Comentários


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domingo, 30 de setembro de 2007




a pedra de Sísifo #2
posts perdidos em rascunhos tardios, atrasados: 29.09.2007




Esfinge | Museu Nacional de Arqueologia de Atenas | 2006



primeiro auto-retrato: aos 16 anos, descobri o mundo antigo e o mundo clássico. descobri a anima, e acreditava no sopro que anima o corpo. pressenti que poderia envelhecer cedo. aos 20 anos, descobri o sentido da pureza inexcedível da poesia, via Sophia de Mello Breyner. ensinaram-me que, num certo modo de sentir, um peito é uma construção, um labirinto, que carrega um minotauro dentro. e passei então a saber que pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos e conhecem o abismo pedra a pedra, anémona a anémona, flor a flor.
pouco tempo depois, afigurou-se-me justo e certo que se pudesse escrever em busca da límpida medida. por tudo isso, arrisquei um gesto: os dias prometidos, com rostos de Medusas e Antígonas e Penélopes agastadas pelo tempo. desfazendo de noite o meu caminho. esse era o mundo ao qual o mundo deveria pertencer. porque é implacavelmente verdade que o mar de Creta por dentro é todo azul e eu não tenho outras palavras para a comoção da terra e da grandeza de pertencer a todas as coisas, ser igual a uma pedra e desejar chorar de alegria com a cara encostada ao chão.





Dikos, Creta | 2006






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posted by saturnine | 17:45 | 2 Comentários


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quinta-feira, 9 de agosto de 2007



Da magnífica solidão na Casa do Limoeiro


o Francisco Bairrão tem tradição de me salvar quando Agosto aperta, com dilúvios inesperados ou infernos almofadados.* e porque é importante que estas coisas se digam - porque nem tudo deve perder-se afogado em silêncios sucessivos -, afirmo que hoje me salvou outra vez. um regresso é como um bálsamo, um sossego, uma familiaridade reconquistada, porque se acredita que afinal há uma ordem capaz de resistir a toda a desordem do mundo e dos afectos, e que a química é coisa cósmica, universal, não de amantes, mas de pessoas. para não esquecer:


Somewhere along this street, unknown to me,
behind a maze of apple trees and stars,
he rises in the small hours, finds a book
and settles at a window or a deskto see the morning in, alone for once,
unnamed, unburdened, happy in himself.

I don't know who he is; I've never met him
walking to the fish-house, or the bank,
and yet I think of him, on nights like these,
waking alone in my own house, my other neighbours
quiet in their beds, like drowsing flies.

He watches what I watch, tastes what I taste:
on winter nights, the snow; in summer, sky.
He listens for the bird lines in the clouds
and, like that ghost companion in the old
explorers' tales, that phantom in the sleet,
fifth in a party of four, he's not quite there,
but not quite inexistent, nonetheless;

and when he lays his book down, checks the hour
and fills a kettle, something hooded stops,
as cell by cell, a heartbeat at a time,
my one good neighbour sets himself aside,
and alters into someone I have known:
a passing stranger on the road to grief,
husband and father; rich man; poor man; thief.


John Burnside | The good neighbour




* coisa perdida por aí. o Bruno haveria de saber do que falo.






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sábado, 19 de março de 2005




retalhos & recortes #20
ou post-recado para os que também esperam o sol



«É quando deixamos de temer a vida
Que ouvimos os peixes

Antes, insuportável
O silêncio só se ouve na água
Ou
Quando deixamos de temer a vida»



© Lopo, cada vez mais próximo da límpida medida.



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segunda-feira, 26 de abril de 2004



:: elogio do ar livre :


Abre a porta e caminha
Cá fora
Na nitidez salina do real


Sophia de Mello Breyner Andresen | Cá fora
Junho de 1994, Musa




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sábado, 21 de fevereiro de 2004




:: redundâncias | pela próximidade do verão ::

acontece-me sempre isto. um inverno inteiro passa e eu sem conseguir aproximar-me dos livros de Sophia. está frio dentro da luz que eles prometem e que tarda. não tenho outra religião que não seja a do Sol. a cada ano me apaixono e converto novamente, se encontro um poema ao acaso, que me fala da minha natureza longínqua. na precaridade dos dias tenho assim a única certeza possível — se habito um mundo que não foi feito à minha medida, há pelo menos uma visão comum, de saudade extrema, de um mundo glorioso de imagens prometido à minha alma. e assim aprendo a necessariedade e o rigor da substância sagrada das palavras.





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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004




:: para a reconstrução de um mundo puro ::


num quarto fechado a luz não entra —
— a noite longa crava-se nas paredes
habitadas de negras sombras
e tu não conheces senão
os estreitos corredores do medo

não suspeitas que tão pouco
te separa de um reino de sol
onde serias luminoso e inteiro
na medida justa do teu corpo
onde habita o sopro dos deuses

— se soubesses tactear a manhã
junto ao silêncio em que te assombras.



para ti que sabes quem és.





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sexta-feira, 16 de janeiro de 2004




:: retalhos e recortes #7 ::

«Acontece um dia que amar não encontra verbo. Amar deixa de ser amar. A palavra morre à boca de quem a profere por senti-la gasta, usada, por vezes moída. Distante.

Um dia ama-se o mundo de uma forma tão brutal, tão voraz, tão intensa e imensa que é evidente uma palavra não bastar para exprimir tal sentimento. É impronunciável. (...)»


Puto Paradoxo | Em Busca da Límpida Medida


o resto do texto vale tanto a pena como estes dois primeiros parágrafos. aconteceu um momento assim há uns meses, quando por puro acaso li o primeiro texto deste blog. foi o assombro do reconhecimento total, o nó do desconcerto, o estômago embrulhado em palavras.
acontecem por vezes coisas assim, como esta inquietação que nos aproxima, como um sopro inexplicável. talvez seja o torpor do frio, talvez sejam as horas longas das noites de inverno.



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segunda-feira, 18 de agosto de 2003




no em busca da límpida medida encontrei aquilo que podem ser os primeiros passos num tratado sobre a arquitectura dos sentidos.

«Ética: com o olfacto constrói-se os alicerces da felicidade. Só ele suporta e confirma o saber do que é certo. O tacto e o paladar são traves mestras, invisíveis nas paredes da existência. Quando vemos e ouvimos estamos só a acolher o que poderá habitar em nós

de vez em quando acontecem assim palavras irredutíveis. mais do que a familiaridade que desperta em nós uma sensação de proximidade apaziguadora, parece ocorrer uma intuição de verdade tal como seria se a alma pressentisse o reconhecimento do seu princípio primordial. e digo que o teu rosto se tornou inexoravelmente o lado de dentro dos meus olhos.





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quinta-feira, 7 de agosto de 2003




hoje descobri acidentalmente o em busca da límpida medida. logo à partida me agradou o título porque evoca Sophia, a clareza e a limpidez que definem a lei justa segundo o ser humano deve viver: uma lei de liberdade, verdade, eternidade. e depois somos (sou?) muito tendenciosos na afectividade, gostamos (gosto?) sempre mais daquilo que nos (me?) é próximo e reconhecível à flor da pele. lêem-se coisas destas (reiterando que não se fala, na blogosfera, senão de amor):

«Um dia, porém, o pior da perda chega. Num qualquer momento apercebemo-nos de que conseguimos viver sem alguém quando nos tinhamos prometido a nós mesmos e ao outro uma eternidade sem fim. Ou pelo menos, lealdade e amizade. E aí sentimo-nos falsos, sentimos que para suportar o sofrimento, para acabar com ele, matámos o amor. Pior. Conseguimos matá-lo.»

e não é que é mesmo? que forma esta de nos trairmos, em prol de uma sobrevivência doravante necessariamente comprometida pelo engano. :|





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spot player special




"us people are just poems"
[ani difranco]


*

calamity.spot[at]gmail.com



~*. through the looking glass .*~




little black spot | portfolio
Baucis & Philemon | tea for two
os dias do minotauro | against demons
menina tangerina | citrus reticulata deliciosa
the woman who could not live with her faulty heart | work in progress
pale blue dot | sala de exposições
o rosto de deus | fairy tales








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~*. rearview mirror .*~


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~*. spying glass .*~


a balada do café triste . ágrafo . albergue dos danados . almanaque de ironias menores . a natureza do mal . animais domésticos . antologia do esquecimento . arquivo fantasma . a rute é estranha . as aranhas . as formigas . as pequenas estruturas do ócio . atelier de domesticação de demónios . atum bisnaga . auto-retrato . avatares de um desejo . baggio geodésico . bananafish . bibliotecário de Babel . bloodbeats . caixa-de-lata . casa de cacela . chafarica iconoclasta . coisa ruim . com a luz acesa . comboio de fantasmas . complicadíssima teia . corpo em excesso de velocidade . daily make-up . detective cantor . dias com árvores . dias felizes . e deus criou a mulher . e.g., i.e. . ein moment bitte . em busca da límpida medida . em escuta . estado civil . glooka . i kant, kant you? . imitation of life . isto é o que hoje é . last breath . livros são papéis pintados com tinta . loose lips sink ships . manuel falcão malzbender . mastiga e deita fora . meditação na pastelaria . menina limão . moro aqui . mundo imaginado . não tenho vida para isto . no meu vaso . no vazio da onda . o amor é um cão do inferno . o leitor sem qualidades . o assobio das árvores . paperback cell . pátio alfacinha . o polvo . o regabofe . o rosto de deus . o silêncio dos livros . os cavaleiros camponeses no ano mil no lago de paladru . os amigos de alex . Paris vs. New York . passeio alegre . pathos na polis . postcard blues . post secret . provas de contacto . respirar o mesmo ar . senhor palomar . she hangs brightly . some variations . tarte de rabanete . tempo dual . there is only 1 alice . tratado de metatísica . triciclo feliz . uma por rolo . um blog sobre kleist . vazio bonito . viajador


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~*. the bell jar .*~



os lugares comuns: against demons . all work and no play . compêndio de vocações inúteis  .  current mood . filosofia e metafísica quotidiana . fruta esquisita menina aflita . inventário crescente de palavras mais-que-perfeitas . miles to go before I sleep . música no coração  .  música para o dia de hoje . o ponto de vista dos demónios . planos para dominar o mundo . this magic moment  .  you came on like a punch in the heart . you must believe in spring


egosfera: a infância . a minha vida dava um post . afirmações identitárias . a troubled cure for a troubled mind . april was the cruellest month . aquele canto escuro que tudo sabe . as coisas que me passam pela cabeça . fruto saturnino (conhecimento do inferno) . gotham style . mafarricar por aí . Mafia . morto amado nunca mais pára de morrer . o exílio e o reino . os diálogos imaginários . os infernos almofadados . RE: de mail . sina de mulher de bandido . the woman who could not live with her faulty heart . um lugar onde pousar a cabeça   .  correio sentimental


scriptorium: (des)considerações sobre arte . a noite . and death shall have no dominion . angularidades . bicho escala-estantes . do frio . do medo . escrever . exercícios . exercícios de anatomia . exercícios de respiração . exercícios de sobrevivência . Ítaca . lunário . mediterrânica . minimal . parágrafos mínimos . poemas . poemas mínimos . substâncias . teses, tratados e outras elocubrações quase científicas  .  um rumor no arvoredo


grandes amores: a thing of beauty is a joy forever . grandes amores . abraços . Afta . árvores . cat powa . colectânea de explicações avulsas da língua portuguesa  .  declaração de amor a um objecto . declaração de amor a uma cidade . desolação magnífica . divas e heróis . down the rabbit hole . drogas duras . drogas leves . esqueletos no armário . filmes . fotografia . geometrias . heart of darkness . ilustraçãoinício . matéria solar . mitologias . o mar . os livros . pintura . poesia . sol nascente . space is the place . the creatures inside my head . Twin Peaks . us people are just poems . verão  .  you're the night, Lilah


do quotidiano: achados imperdíveis . acidentes quotidianos e outros desastres . blogspotting . carpe diem . celebrações . declarações de emergência . diz que é uma espécie de portfolio . férias  .  greves, renúncias e outras rebeliões . isto anda tudo ligado . livro de reclamações . moleskine de viagem . níveis mínimos de suporte de vida . o existencialismo é um humanismo . só estão bem a fazer pouco


nomes: Aimee Mann . Al Berto . Albert Camus . Ana Teresa Pereira  . Bauhaus . Bismarck . Björk . Bond, James Bond . Camille Claudel . Carlos de Oliveira . Corto Maltese . Edvard Munch . Enki Bilal . Fight Club . Fiona Apple . Garfield . Giacometti . Indiana Jones . Jeff Buckley  .  Kavafis . Klimt . Kurt Halsey . Louise Bourgeois . Malcolm Lowry . Manuel de Freitas . Margaret Atwood . Marguerite Duras . Max Payne . Mia Couto . Monty Python . Nick Drake . Patrick Wolf  .  Sophia de Mello Breyner Andresen . Sylvia Plath . Tarantino . The National . Tim Burton


os outros: a natureza do mal . amigos . dedicatórias . em busca da límpida medida . retalhos e recortes



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...it's full of stars...


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