I'm under no illusion
As to what I meant to you
But you made an impression
Sometimes I still feel the bruiseos perigos da literalidade perseguem sempre o amor profundo às palavras. toda eu me substituo por palavras, à falta de matéria melhor que me construa. a nudez da existência é um susto, um punho cerrado ameaçador. um dia descobre-se que as palavras não chegam, que não se pode viver exclusivamente através delas a vida que inventam. mas enquanto não chega esse dia, sobrevive-se escrevendo, obcecando. isto é como dizer que é muito mais o que digo do que o que efectivamente sou. intimido porque falo demais. mas é pouco o que transporto. desmultiplico-me, ínfima, insuficiente, inexacta. como uma casa cheia de espelhos. morto amado nunca mais pára de morrer** Mia Couto* * *«Se for consultar o psicanalista, confio em Deus que ele permita que se sente também ao nosso lado um dermatologista, pois sinto que tenho cicatrizes nas mãos por tocar em certas pessoas. Uma vez, no parque, quando Franny ainda andava no carrinho, pus-lhe a mão debaixo da cabeça e deixei-lha lá ficar muito tempo. Outra vez, na Rua Setenta e Dois, fiz a mesma coisa, no Lowe, com o Zooey, durante a passagem de um filme sonoro. Ele devia ter cinco ou seis anos e metera-se debaixo da cadeira para não ver uma cena que muito o afligia. Pus-lhe a mão em cima da cabeça. Certas cabeças, certas cores, certos contactos com a pele humana deixam-me cicatrizes para sempre. Outras coisas também. Charlotte, uma vez. Fugiu-me do estúdio e eu agarrei-lhe no vestido para a deter, para a conservar perto de mim. Era um vestido de algodão amarelo, de que eu gostava por ser demasiado comprido para ela. Ainda conservo uma marca amarelo-limão na palma da minha mão direita.»
J.D Salinger | Carpinteiros, Levantem alto o Pau de Fileira
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