segunda-feira, 26 de julho de 2010



a little bit more on less is more


É verdade que não é só o lugar que condiciona a construção da identidade. Houve um momento chave, em que me veio parar às mãos a obra completa da Sophia de Mello Breyner Andresen.





As grutas

O esplendor poisava solene sobre o mar. E – entre duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido – quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente. Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes. Porém a beleza não é solene mas também inumerável. De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado. Um grande rascasso vermelho passa em frente de mim que nunca antes o imaginara. Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um mundo novo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias.
Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetração na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto parece roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem água e luz. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são as águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismo e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.






Esse momento redefiniu-me e é daí que vem a minha noção aguçadíssima do lirismo implícito da vida quotidiana. É daí que vem a minha convicção de que a poesia é como uma pedra polida e, por conseguinte, minimalista. Aprendi que cada palavra deve ser exacta, nem mais, nem menos. Aprendi que é bom ter o conhecimento do inferno, e a descrever com exactidão as imagens desse inferno. Aprendi que este conhecimento que dói pressupõe também a alegria do recomeço. Por isso preciso do mar, que se converte no elemento essencial onde é possível fazer a limpeza da alma, renascer, recomeçar. Aprendi também que pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos/ E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor* e que o mar de Creta por dentro é todo azul. Todo azul. Não é verde, nem azulado. Azul.




* O Minotauro



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posted by saturnine | 16:03 | 0 Comentários


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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011



A pedra mínima do ponto de vista de Bartleby


É verdade que a construção de um "eu" literário não ocorre sem solavancos, ou surpresas inesperadas, súbitos acessos de vergonha, ou rasgos de imprevisível admiração. Não somos sempre aquilo que já fomos, e nem sempre os lugares familiares nos pertencem para sempre.

À força de tanto massacrar o lugar da ferida (oh, a insistência na persistência da memória...), a pele inesperadamente endurece, impermeabiliza-se: cicatriza. Não se deixa massacrar. A fina sensibilidade que permite uma devoção sem par ao género poético pode tender, num primeiro momento deste exercício de sobrevivência, a incitar a um gesto de recusa: a minha pedra polida, perfeita e minimal, tornou-se tão mínima, tão mínima, que quase se evaporou. A poesia existe algures dentro do meu corpo apenas como um grão de areia, indelével, mas vagamente imperceptível.

A minha pele endureceu e eu não consigo manusear a subtileza dos versos como antes. Gosto de outras coisas. Gosto menos da escrita como agressão. É como o Bartleby, também prefiro de não. As palavras já não encenam, a cada momento uma pequena morte. São outra coisa. São uma coisa qualquer à procura de nome, à procura de lugar. Nos últimos tempos, o grande silêncio em que a exaustão me levou a mergulhar quase me levou a crer que se extinguira em mim qualquer coisa: a capacidade de dizer, a acapacidade de ser.

Mas está tudo lá, de novo inesperadamente: o universo inteiro no meu grão de areia. A poesia volta toda a fazer sentido quando regressa ao lugar do fascínio e da aprendizagem inicial: em tempos de desordem, angústia e terror, o sono não possui qualquer domínio. O medo, contudo, não soçobra, pois por aqui já aprendemos a rodear-nos de bom juju. A límpida medida de Sophia de Mello Breyner Andresen sublinha a razão por que consigo atravessar, a custo, o deserto da insónia:




Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte

Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento






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posted by saturnine | 02:18 | 0 Comentários


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terça-feira, 22 de maio de 2007



.evoL


os meus desorganizados hábitos de escrita levam-me ao caos. o meu perfeccionismo obsessivo-compulsivo leva-me a picos de organização. este fim de semana vasculhei este blog de uma ponta à outra, desde o day one, em busca de matéria escrita compilável. e compilei. registei, cronologicamente, arquivei. quatro anos, quarenta e oito meses, dias e horas a perder de conta. eu vi aqui o filme da minha vida, a mancha escura das dores de crescimento, a procura titubeante de um ofício que resistisse à passagem do tempo. a nudez inicial desconcertou-me. e estão assinalados, como cruzes pregadas à beira da estrada, os grandes marcos, onde do que fui fiz outra coisa qualquer. o riso, o que dói, o lirismo, a dureza dos dias. e está lá, a grande derrocada, ou o grande desabrochar, o ponto em que abandonei irreversivelmente a familiaridade dias dias prometidos. o número de posts caiu para metade, menos que isso por vezes. ensaio pouco, quase nada, o exercício poético. sem angústias. a poesia é uma pedra polida durante séculos pelas marés. tem o seu tempo para se revelar. e há uma aprendizagem fundamental em ser-se mínimo - poder de facto dizer tanto mais, se se aprender a falar um pouco menos.



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posted by saturnine | 00:35 | 12 Comentários


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sábado, 8 de setembro de 2007



Agnès e outros distúrbios líricos


se tivesse que escolher de entre todas as palavras do mundo as que mais me dizem - e que mais dizem sobre mim - sem qualquer hesitação seriam estas:


«Não sou nada
Não quero ser nada
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»


Álvaro de Campos


a descoberta de um poema como a Tabacaria aos 15 ou 16 anos é um episódio francamente marcante na vida de uma adolescente. uma abertura assim abrupta e incisiva, irredutível, sem rodeios nem contemplações, como um soco no estômago, é coisa para permanecer marcante para o resto da vida. nunca encontrei outros versos com tão absoluto e inultrapassável significado. é uma pungência para a qual não poderá jamais haver segundas palavras, reformulações ou ajustes. o início da Tabacaria é a evidência inquestionável da perfeição lírica. a personificação exacta da pedra polida, mínima, despida de tudo quanto é acessório, que a poesia deve ser. não deixa de ser curioso que anos mais tarde me tenha deparado com isto

«I like darkness confusion and absurdity, but I like to know that there's a door I can escape into an area of happiness.»
David Lynch

e percebido que, no fundo, até dizem o mesmo. há um sentimento comum, de contradição essencial, que reune ambas as afirmações num mesmo domínio da plena identificação metafísica. por que é que eu haveria de ter que escolher de entre todas as palavras, estas, para que o mundo saiba o que tenho a dizer de mim, isso é que já não sei. como é certamente evidente, este é por excelência um blog na primeira pessoa. também aos 16 anos, li o livro que marcou a primeira grande viragem rumo a um crescimento à força, inesperado: A Imortalidade de Milan Kundera. não devo ter relido nenhum outro livro tantas vezes, ao ponto de chegar a confundir-me com ele. Agnès foi certamente uma das personagens mais marcantes da minha vida até ao momento. durante anos imaginei que de facto não deveria haver nada que uma mulher pudesse desejar mais do que enfrentar uma multidão segurando um miosótis à altura dos olhos. aniquilar o mundo, o excesso de gente, os ruízos, as vozes, a insolência intrusiva dos transeuntes com um amuleto carregado de simbolismo - Agnès, caminhando como se fosse invisível, como se desaparecesse, e caminhando rumo ao desaparecimento total, avançava como quem dizia: forget-me-not. pode fazer-se desaparecer o mundo nos concentrarmos numa minúscula flor azul, segura à altura dos olhos. Agnès era especial. a multidão não a via realmente. não podia supôr que os seus pensamentos não eram deste mundo. os seus gestos eram daqueles que duravam eternamente, deixando o momento suspenso na graciosidade de um mover de braço. Agnès não gostava das mulheres que não sabem fazer outra coisa senão falar de si. como aquela no balneário do ginásio que, em escassos minutos, afirmou claramente ao mundo o quanto gostava de duches frios. eu sou esta mulher a interromper o imaginário sanitário de Agnès. eu sou esta mulher que chega ao mundo e, mais do que anunciar ter coisas para dizer, as diz mesmo. eu sou o besouro insolente de Kundera. mas que não se deixem enganar: eu não quero que o mundo saiba de mim. falo tão somente para que o mundo me responda.








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posted by saturnine | 03:14 | 4 Comentários


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sábado, 29 de janeiro de 2011



Sísifo (finalmente feliz)


quando consegui
imaginar Sísifo feliz
fui desfazendo o meu rochedo
com afincada dedicação
o desgastei e desbastei
(porque toda a pedra se quer mínima e polida)

fui desfazendo o meu rochedo
para que mais nada me doesse
e pudesse transportá-lo no bolso
e enfim:

terminei com um mero
grão de areia.






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posted by saturnine | 01:25 | 0 Comentários


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spot player special




"us people are just poems"
[ani difranco]


*

calamity.spot[at]gmail.com



~*. through the looking glass .*~




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Baucis & Philemon | tea for two
os dias do minotauro | against demons
menina tangerina | citrus reticulata deliciosa
the woman who could not live with her faulty heart | work in progress
pale blue dot | sala de exposições
o rosto de deus | fairy tales








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~*. rearview mirror .*~


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~*. spying glass .*~


a balada do café triste . ágrafo . albergue dos danados . almanaque de ironias menores . a natureza do mal . animais domésticos . antologia do esquecimento . arquivo fantasma . a rute é estranha . as aranhas . as formigas . as pequenas estruturas do ócio . atelier de domesticação de demónios . atum bisnaga . auto-retrato . avatares de um desejo . baggio geodésico . bananafish . bibliotecário de Babel . bloodbeats . caixa-de-lata . casa de cacela . chafarica iconoclasta . coisa ruim . com a luz acesa . comboio de fantasmas . complicadíssima teia . corpo em excesso de velocidade . daily make-up . detective cantor . dias com árvores . dias felizes . e deus criou a mulher . e.g., i.e. . ein moment bitte . em busca da límpida medida . em escuta . estado civil . glooka . i kant, kant you? . imitation of life . isto é o que hoje é . last breath . livros são papéis pintados com tinta . loose lips sink ships . manuel falcão malzbender . mastiga e deita fora . meditação na pastelaria . menina limão . moro aqui . mundo imaginado . não tenho vida para isto . no meu vaso . no vazio da onda . o amor é um cão do inferno . o leitor sem qualidades . o assobio das árvores . paperback cell . pátio alfacinha . o polvo . o regabofe . o rosto de deus . o silêncio dos livros . os cavaleiros camponeses no ano mil no lago de paladru . os amigos de alex . Paris vs. New York . passeio alegre . pathos na polis . postcard blues . post secret . provas de contacto . respirar o mesmo ar . senhor palomar . she hangs brightly . some variations . tarte de rabanete . tempo dual . there is only 1 alice . tratado de metatísica . triciclo feliz . uma por rolo . um blog sobre kleist . vazio bonito . viajador


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