Segunda-feira, Maio 19, 2008

 

 

O ponto de vista dos demónios #29

 

 



Bonnie "Prince" Billy | The Letting Go



nesta noite algo de extraordinário aconteceu. estávamos num camarote, num balcão, a uma distância que a memória (turva) torna cada vez mais funda, mais imprecisa - mais distante. eu quis gritar qualquer coisa. um pedido, um suspiro, um anseio. mas havia um assombro que tomava secretamente conta de todos os espaços, de imediato me pôs a mão crispada no braço, segurou-me pela garganta: onde pensas que vais, criatura? eu pensava que ia nas asas do desejo. mas fui atirada contra um precipício sem fundo, algo só muito vagamente parecido com as pessoas no chão abaixo de mim, e não, não é a isto que deve saber o voo. era mais uma pequena morte, eu juro que morri ali durante 2 minutos e ainda hoje não sei que sopro me devolveu à vida. caí, circularmente, interminavelmente, até não saber mais por onde cair. quando a dor é grande, os nervos são os primeiros a evadir-se em colapso instantâneo. depois é a vez dos músculos, que petrificam, atraiçoam o gesto previsto. o coração dispara, olha como corre furioso em direcção a lugar nenhum. quem poderia sustê-lo, assim em fuga? pára, regressa, onde vais, coração? subitamente, o corpo é um túmulo. a música, por momentos, eclipsa-se. só com muita dificuldade poderia ousar recordar o que ouvi. a respiração, suspensa, regressa em súbitas emergentes sôfregas golfadas. must - have - a-i-r. o que aconteceu ali (se não foi um encontro com deus ou os seus demónios), pode ter sido o que Bonnie "Prince" Billy cantava:


"Turning half the heart into something hard and dark"



The Letting Go
é um disco extraordinário. demorou a conquistar-me. precisei de estar naquela sala, a ouvir aquelas canções, para me convencer que a voz de Dawn McCarthy era uma benção. da matéria das coisas inexplicáveis, miraculosas, próximas da impossibilidade da perfeição, o título deste disco tem origem num poema. e não pode ser por acaso - não pode - que seja um poema sobre colapso dos nervos, músculos que atraiçoam, corpo que se faz túmulo:



After great pain, a formal feeling comes —
The Nerves sit ceremonious, like Tombs —
The stiff Heart questions was it He, that bore,
And Yesterday, or Centuries before?

The Feet, mechanical, go round —
Of Ground, or Air, or Ought
A Wooden way
Regardless grown,
A Quartz contentment, like a stone —

This is the Hour of Lead —
Remembered, if outlived,
As Freezing persons, recollect the Snow —
First — Chill — then Stupor — then the letting go


Emily Dickinson

 

 

posted by saturnine | 14:48 | 2 comments 

 

 

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Domingo, Maio 18, 2008

 

 

Domingo, 11 de Maio

 

 

com a excitação - óbvia, natural, inevitável - esqueci-me completamente que, contra todas as probabilidades, num domingo, 11 de Maio, cinco anos antes, um ponto negro ousou emergir da escuridão.


 

 

posted by saturnine | 19:20 | 5 comments 

 

 

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and then the demons strike back

 

 

isto de sobreviver aos dias é uma negociação. uma trégua, um espaço conquistado a custo. que é como quem diz: eu vou, mas volto. a própria Perséfone, coitada, cujo crime maior foi não ter resistido à sedução de uma romã, sabe-o melhor do que ninguém. aceitar uma dádiva de primavera é, ainda assim, aceitar deixar a casa sempre de mesa posta: diz que regressam logo no tempo previsto, eles, os demónios. e um amuleto é só uma trégua de estação: logo à hora marcada todo o inferno nos vem à boca.*

desafio-vos a encontrarem canção mais triste que esta. a canção tem o dom de ser, por si, triste. sabemo-lo pelo tom melancólico, dramaticamente contido, como uma valsa soturna em tom de despedida. e depois sabemos o que está dentro da canção: Robert Forster perdeu um irmão. um irmão que deixara a canção quase escrita e morreu antes que ela visse a luz do dia. em tudo na voz de Forster transparece essa herança, essa perda descomunal, impossível de conceber, essa falha grave do mundo. a canção, portanto, carrega toda a tristeza impossível de nomear e, ironicamente, afigura-se demoníaca. desafio-vos. não há nada mais assombrado do que isto, numa noite assombrada assim por tantos demónios e tantas perdas.




Robert Forster | Demon Days


In these demon days
We’re pulling our pay
The lights on the hill
Are freezing us still
The fingers of fate
Stretch out and take
Us to a night
But something’s not right
Something’s gone wrong


The half whispered hopes
The dreams that we smoked
Puffed up and ran
As only dreams can
Dreamt by the young
Sparks to be sung
In places so bright
But something’s not right
Something’s gone wrong







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* Mia Couto

 

 

posted by saturnine | 01:53 | 2 comments 

 

 

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Sexta-feira, Maio 16, 2008

 

 

against demons

 

 

against demons é um amuleto. se eu tivesse etiquetas neste blog, esta seria a número um. um amuleto, uma gárgula, uma coisa inventada, mágica, simbólica, que mantém afastadas as investidas das trevas. aqui, against demons é a música que preenche os meus dias, a certeza de que o pop/rock é mesmo um dos assuntos mais sérios da vida, e que trazer por dentro uma canção é uma protecção, como quem ostenta um qualquer objecto da sorte contra a matéria má dos dias.
há uma meia dúzia de canções (bem, na verdade bastante mais que meia dúzia) que intercedem por mim quando as sombras se excedem e ameaçam. do que dói, defendo-me cuspindo versos. neste momento, poderia já arriscar uma enciclopédia dos afectos, primorosamente cartografados em pedaços de músicas. isto tem a sua relevância. de um modo geral, busca-se sempre um sentido. para o mundo, para qualquer coisa. não aguentamos a desordem estuporada da vida.* precisamos que alguma coisa nos diga qualquer coisa. a Rita arrisca tão bem uma explicação para o deslumbre do rock: é ter meia dúzia de gajos que conseguem dizer a uma geração de jovens adultos qualquer coisa que lhes diga alguma coisa. somos todos estranhos e temos as vidas fodidas, mas não estamos sós. dito de outra forma, pela mãos dos Shins, qualquer coisa como


So affections fade away,
And do adults just learn to play
The most ridiculous, repulsive games?


Turn on me




por isso é que há dias a fio só tenho duas coisas no meu leitor: The National e The Shins. que por um qualquer efeito mágico, são ambivalentes. droga e antídoto. veneno e bálsamo. aos primeiros, pergunto: espelho meu, espelho meu, que perguntas te faço eu?


we were always weird but I never had to hold you by the edges like I do now

Start a war



é o que eles dizem. mas depois sossegam:


turn the light out say goodnight
no thinking for a little while
let's not try to figure out everything at once


Fake Empire



e há coragem para deixar que seja noite. (we're half-awake in a fake empire, frase-refrão mais emblemática do ano passado, bem no encalço da frase-refrão mais brilhante de 2005: break my arms around the one I love.)
já os segundos, trazem-me um retrato:


The gutter may profess its love,
Then follow it with hesitation,
But there are just so many of
You out there for rent

A stronger girl would shake this off in flight,
And never give it more than a frowning hour,
But you have let your heart decide,
Loss has conquered you,

You've won one too many fights,
Wearing many hats every time,
But you wont win here tonight



mas ainda vão a tempo de deixar um pedido, um recado, um desejo:


Oh girl, sail her, don't sink her,
This time


Girl Sailor



e eu suspendo-me um momento, uma hora, não sei quanto tempo. aguardo que passe. e confesso que menti. há mais coisas que me passam pelo leitor, a desoras. uma canção rara de The Go-Betweens, uma canção menos rara de Van Morrison e uma canção ao vivo de Robyn Hitchcock. canções que foram ofertas, preciosas e inesperadas, pelo que têm o dom de ser amuletos da melhor espécie: contra o medo, nada melhor do que ser levado pela mão.






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* Herberto Helder

 

 

posted by saturnine | 21:37 | 2 comments 

 

 

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Quinta-feira, Maio 15, 2008

 

 

miles to go before I sleep #20

 

 

é possível que ainda demore, a lenta gradual descida deste limbo onde cada recanto reconduz às mesmas memórias, à mesma fantasmagoria. é possível que ande ainda tempo indefinido de rosto impreciso, feito canção. é possível que a cada coisa que dói só saiba responder com a inutilidade de um verso.



'Oh poor sky, don't cry on me
Did somebody break your heart again?
Oh poor sky, don't cry on me
Are you gonna fall apart again?'


The National

 

 

posted by saturnine | 02:23 | 4 comments 

 

 

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Quarta-feira, Maio 14, 2008

 

 

não há duas sem três

 

 

resta ainda dizer que houve bons pensamentos e bons desejos e uma ou outra impossibilidade fodida e muita gente em que pensei e entre as que conheço e as que não, não perdi oportunidade para cumprir um pedido e suspirar para dentro:



«serve me the sky with a big slice of lemon»

The National

 

 

posted by saturnine | 01:25 | 2 comments 

 

 

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you came on like a punch in the heart #3

 

 

de tantas formas, depois das pequenas mortes, se fazem às unhas à terra e se regressa ao lado arejado do solo. de tantas formas, depois de nos matar, nos volta a resgatar uma cidade. um certo limbo, um certo aperto no coração, uma certa indecisão entre a angústia e o nirvana, não são maus de todo. é bom reconstruir lugares. Lisboa, ganhaste-me outra vez.










© Senhor Manel










I was in a train under a river when I remembered what
What I wanted to tell you, man
What I wanted to tell you, man
I got two sets of headphones, I miss you like hell
Won't you come here and stay with me
Why don't you come here and stay with me

 

 

posted by saturnine | 00:04 | 5 comments 

 

 

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Terça-feira, Maio 13, 2008

 

 

Break my arms around the one I love

 

 


The National | 11 de Maio | Lisboa

© ilustre Senhor Manel, ao lado de quem tive o prazer de me sentar (na primeira fila, ao centro)





The National | Daughters of the Soho Riots



não há muitas palavras para isto. epifania. amor. derrota total. pequenas mortes. os rostos que vi, os que tanto queria ver, os que - qual Bartleby de meia-tigela - preferia não. a sensação de que somos vagamente weirdos em mútuo reconhecimento. eu pelo menos sou uma grande weirdo e doem-me permanentemente as coisas que trago por dentro. doem um bocadinho mais quando soa a "Daughters of the Soho Riots". doem particularmente se deixo ecoar-me na cabeça



I wanna hurry home to you
put on a slow, dumb show for you
and crack you up



and I'm closing on 29.

 

 

posted by saturnine | 00:26 | 20 comments 

 

 

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Quinta-feira, Maio 08, 2008

 

 

Este post tem dedicatória

 

 






The Go-Betweens | Spring Rain

 

 

posted by saturnine | 00:16 | 3 comments 

 

 

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Quinta-feira, Abril 24, 2008

 

 

you came on like a punch in the heart #2

 

 

o Nick Cave data de temos tão remotos na minha vida musical que a memória das primeiras audições evoca uma época em que ainda lia a colecção Triângulo Jota. decorria o ano de 1992 da graça do Senhor, o Henry's Dream acabadinho de sair. bem sei que cada coisa é uma coisa e que cada maravilha é sempre a única maravilha e que o amor é sempre uma coisa do princípio e do fim do mundo. mas ainda assim não é hipérbole nem falta à verdade se constatar que não me lembro de outra coisa assim. uma epifania completa: you came on like a punch in the heart. foram precisos 16 anos (mais de metade da minha vida) para ver como era aquele rock, aquela fúria, assim de perto. e agora, percorrer assim os caminhos tortuosos, ramificados, intrincados, a que conduzem estas músicas, é como um súbito alívio de agarrado. o corpo expande-se em interna descompressão. coladas a essas músicas, há toda a parafernália de recordações da entrada abrupta nos vintes, as aulas de desenho, as festas de fim de semestre, a evidência do verão à chegada de Junho, os jardins ociosos das Belas Artes, o sol, as noites, os perfumes, os rostos que beijei, meu deus, os rostos que desejei beijar, muitas tardes passadas no quarto pequeno, com pouca luz, a imaginar encontros, a fantasiar futuros, a carpir as mágoas habituais, sem saber muito bem que ordem havia na desordem completa do mundo, mas sabendo que havia uma música que era um farol e que dizia estoicamente the mercy seat is waiting/ and I think my head is burning/ and in a way I'm yearning/ to be done with all this measuring of truth./ an eye for an eye/ a tooth for a tooth/ and anyway I told the truth/ and I'm not afraid to die. muitas tardes que se transformaram em noites. noites que se transformaram em pessoas. pessoas que se transformaram em paixões. paixões que se transformaram naquilo que me lembro daquilo que sou. how fucking romantic. acho que chegou a minha vez. se eu fosse um vídeo, seria este:


 

 

posted by saturnine | 00:34 | 4 comments 

 

 

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Quarta-feira, Abril 23, 2008

 

 

you came on like a punch in the heart*

 

 



eu não me contentaria com nada menos do que o melhor. não me contentaria com menos do que ter a certeza que aquele olhão azul estava mesmo ali a azular. estava tão perto que os perdigotos do senhor me acertavam.

morri ali pelo menos uma ou duas vezes. mas a mensagem estava por todo o lado: dig yourself. e regressei. de coração abalroado. não há escala para isto, não é tão bom quanto melhor que muito pior ainda que. é só uma evidência absolutamente necessária: um grande amor à espera de ser cumprido. não havia tempo que bastasse para tudo o que havia para ser dito. mas houve verdade suficiente para que os anos se condensassem de súbito em breves instantes. os rostos que eu percorri, meu dEUS, as memórias. uma vida inteira ali dentro, uma vida inteira carregada de gente, de histórias dentro de músicas dentro de histórias. não era preciso muito para que fosse um concerto bestial: o essencial eu levo sempre comigo. e eu, que sou assumidamente uma "Henry's Dream" / "Let love in" kind of girl e que sempre achei que era quase imperdoável a irremediabilidade da passagem do tempo, dei por mim a gostar deste homem-grinderman. é-se o que se é, o tempo todo não nos pertence. ficamos com o pouco que nos calha. e ainda assim, por vezes, é tão mais do que aquilo que deveríamos esperar.





* Jesus of The Moon

 

 

posted by saturnine | 03:41 | 7 comments 

 

 

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Sexta-feira, Abril 18, 2008

 

 

on being the woman who could not live with her faulty heart

 

 

foi a lebre que me serviu o prato. o mundo passou a fazer subitamente muito mais sentido desde o dia em que Margaret Atwood passou a constar do meu livro de citações internas de emergência. assumi um epíteto.

há uma certa ordem subjacente a todas as coisas, incluindo ao caos de uma vida, tudo espera o momento para se revelar e em cada revelação, ao olho atento, se mostram as intricadas ramificações de ligações que atribuem significância ao universo em redor. há uma luta corpo-a-corpo, de dentro para fora e de fora para dentro, de um corpo consigo próprio. uma sucessão truculenta de mútuos ataques, investidas, atraiçoamentos, reconciliações. em pano de fundo, existe a morte, muda, silenciosa, impenetrável, mediadora: é, pois, uma luta até à morte.

este é o meu objecto de estudo (e a Margaret Atwood enuncia-o). para efeitos de elucubração neste post, nomeio-me primeira cientista das poéticas corporais.

o que eu não sabia, então, é que há poemas que têm duas cabeças* e eu tinha ainda uma para descobrir. finalmente, chegou-me isto pelo correio:




e assim, eu, que não consigo viver com o meu coração defeituoso, constato:



The Woman Makes Peace with Her Faulty Heart

It wasn't your crippled rhythm
I could not forgive, or your dark red
skinless head of a vulture.

but the things you hid:
five words and my lost
gold ring, the fine blue cup
you said was broken
that stack of faces, gray
and folded, you claimed
we'd both forgotten,
the other hearts you ate,
and all that discarded time you hid
from me, saying it never happened.

There was that, and the way
you would not be captured,
sly featherless bird, fat raptor
singing your raucous punctured song
with your talons and your greedy eye
lurking high in the molten sunset
sky behind my left cloth breast
to pounce on strangers.

How many times have I told you:
The civilized world is a zoo,
not a jungle, stay in your cage.
And then the shouts
of blood, the rage as you threw yourself
against my ribs.

As for me, I would have strangled you
gladly with both hands,
squeezed you closed, also
your yelps of joy.

Life goes more smoothly without a heart,
without that shiftless emblem,
that flyblown lion, magpie, cannibal
eagle, scorpion with its metallic tricks
of hate, that vulgar magic,
that organ the size and color
of a scalded rat,
that singed phoenix.

But you've shoved me this far,
old pump, and we're hooked
together like conspirators, which
we are, and just as distrustful.
We know that, barring accidents,
one of us will finally
betray the other; when that happens,
it's me for the urn, you for the jar.
Until then, it's an uneasy truce,
and honor between criminals
.


Margaret Atwood in *Two-Headed Poems

 

 

posted by saturnine | 23:54 | 3 comments 

 

 

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Quarta-feira, Abril 16, 2008

 

 

morto amado nunca mais pára de morrer *

 

 

aquilo que nos acontece, nunca aconteceu, nunca mais pára de acontecer. Abril dura para sempre. não nos separamos do tempo que passa. uma ferida passada é um nenúfar no peito. diariamente desabrocha as suas pétalas de estilete.



* Mia Couto












What you did to me made me
See myself something different
Though I try to talk sense to myself
But I just won't listen

Won't you go away
Turned yourself in
You're no good at confession
Before the image that you burned me in
Tries to teach you a lesson

What you did to me made me see myself somethin' awful
A voice once stentorian is now again meek and muffled
It took me such a long time to get back up the first time you did it
I spent all I had to get it back, and now it seems I've been outbidded

My peace and quiet was stolen from me
When I was looking with calm affection
You were searching out my imperfections


What wasted unconditional love
On somebody
Who doesn't believe in the stuff

You came upon me like a hypnic jerk
When I was just about settled
And when it counts you recoil
With a cryptic word and leave a love belittled

Oh what a cold and common old way to go
I was feeding on the need for you to know me
Devastated at the rate you fell below me

What wasted unconditional love
On somebody
Who doesn't believe in the stuff

Oh, well


Fiona Apple

 

 

posted by saturnine | 01:52 | 1 comments 

 

 

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Segunda-feira, Abril 14, 2008

 

 

insensatez já não mora aqui

 

 





pois é. a insensatez já não mora ali. mudamos as nossas saturninas traquitanas todas para aqui. ou estamos em mudanças, pronto. mas estamos a chegar lá. venham ver-nos, please. we have cookies.






















© lbs productions

 

 

posted by saturnine | 02:55 | 9 comments 

 

 

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Sexta-feira, Abril 11, 2008

 

 

April was the cruelest month #3

 

 

(ou o díptico poético-terrorista)


o que eu espero é que passem as águas mil, que o Bill Evans* prevaleça, que Maio seja purgante e eu possa regurgitar o mal de Abril como uma bola de pêlo que me pesa no interior do corpo e o entope como um tapume, que o silêncio dos livros seja mais forte e volte a escutar-se: que por estes dias um bicho escala-estantes sofre, entupido, acanhado, não lendo senão a cartografia cutânea dos seus pulsos magoados.





ou isso, ou que possa entretanto abrir à naifada a goela à chèvre desta infeliz e tipicamente idiota sopeira que, atrás de mim, cacareja incessantemente como se eu me importasse a ponta de um corno saber que lhe dói a unha do pé (ou quaisquer outras maleitas quotidianas de que possa sofrer, que eu cá sou quase surda, tudo o que não me interessa soa sempre à fala indistinta da professora do Charlie Brown).







* you must believe in spring

 

 

posted by saturnine | 21:37 | 7 comments 

 

 

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Quarta-feira, Abril 02, 2008

 

 

April was the cruelest month #2

 

 



© lbs | sintra | 2008





era o Rui Pires Cabral que dizia, nas minhas mãos, numa música antológica (& onze cidades), num café da rua de Ceuta, num Abril passado: "sem deixar eco qualquer coisa ruía." desde então, alguns dias antes, um sopro mais aflito, uma respiração mais dificultada, um vago torpor só muito subtilmente pressentido. começa a doer-me Abril lentamente por todo o corpo. até hoje, nunca mais parei de ressentir-me do eco dessa qualquer coisa que ruía sem eco num Abril passado. se olho para dentro, constato: tenho uma nódoa negra no coração.



Sempre que eu abrir as portas
para o teu tempo, comerei o pó dos dólmens
nos cantos da tua boca, em julho
entre o arvoredo.

Mais valia que não me tivesses salvo
nessa altura, o coração não me basta
e ainda se ressente
.


Rui Pires Cabral | Boo Boo's Gone Mambo






© lbs | sintra | 2008

 

 

posted by saturnine | 00:24 | 7 comments 

 

 

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Terça-feira, Abril 01, 2008

 

 

Good ol’ rythm’n’blues or the ex-factor on some casual late night thinking

 

 

I wear black on the inside





© lbs | aveiro | 2007




It could all be so simple
But you'd rather make it hard
Loving you is like a battle
And we both end up with scars
Tell me, who I have to be
To get some reciprocity
No one loves you more than me
And no one ever will

Is this just a silly game
That forces you to act this way
Forces you to scream my name
Then pretend that you can't stay
Tell me, who I have to be
To get some reciprocity
No one loves you more than me
And no one ever will


No matter how I think we grow
You always seem to let me know
It ain't workin'

And when I try to walk away
You'd hurt yourself to make me stay
This is crazy


I keep letting you back in
How can I explain myself
As painful as this thing has been
I just can't be with no one else
See I know what we got to do
You let go and I'll let go too
'Cause no one's hurt me more than you
And no one ever will


Lauryn Hill | Ex-Factor | The Miseducation of Lauryn Hill



 

 

posted by saturnine | 23:57 | 2 comments 

 

 

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Sábado, Março 29, 2008

 

 

Da selecção natural

 

 

há coisas que não resistem à passagem do tempo, ao excesso de silêncio.
outras sim, até demais, e fazemos por não acercar-nos delas.




while you make pretty speeches
i'm being cut to shreads
*




* Radiohead

 

 

posted by saturnine | 18:58 | 3 comments 

 

 

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So far, so good

 

 

23 de Fevereiro de 2008: Richard Hawley, Festival para Gente Sentada

26 de Março de 2008: Portishead, Coliseu do Porto

22 de Abril de 2008: Nick Cave, Coliseu do Porto

11 de Maio de 2008: The National, Aula Magna

28 de Maio de 2008: Cat Power, Coliseu do Porto





os apêndices: não ter que pagar bolha para ver, sem saber de antemão, A Hack And A Hacksaw. ter o bilhete mais perfeito possível para The National (primeira fila das doutorais, ao centro). afigurar-se a possiblidade de Leonard Cohen e Bob Dylan lá mais para o verão, sabe-se lá que mais boas surpresas. qualquer dia tenho os sonhos todos realizados e estarei um passo mais próxima de me tornar uma pessoa verdadeiramente insuportável. respect.

 

 

posted by saturnine | 18:10 | 5 comments 

 

 

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Sexta-feira, Março 28, 2008

 

 

Meu pequeno animal anti-social (crónica de um amor profundo)

 

 

eu esperei 10 anos pelos Portishead. nesses 10 anos, eu frequentei os jardins das Belas-Artes, apaixonei-me por pessoas, desapaixonei-me das pessoas, atravessei o Atlântico, morri uma ou duas vezes, mudei de casa, mudei de emprego, acabei um curso, acabei relações, fiz-me saturnina, fiz-me citrina, passei a gostar de desgraçadinhos à guitarra como o Townes Van Zandt, fui a festivais, vi por dentro o inverno transmontano, estive cativa da serra e cativa do inferno e depois regressei. 10 anos à espera deste exacto momento: as luzes baixam, acendem-se os focos azuis, soam os primeiros acordes soturnos de uma melodia (re)conhecida. eu tremo, o coração dispara, as lágrimas afloram. é tudo perfeito e é tal e qual como eu imaginei durante longos 10 anos: "Roads". 10 anos de memórias, afectos, caem-me em cima em desmoronamento simultâneo.

eu já conhecia a Beth Gibbons ao vivo desde os tempos a solo com o Rustin Man. eu já sabia que ela é uma deusa, quase intocável, quase inatingível, um anjo caído, glorioso, de voz sublime, capaz de criar momentos únicos de extraordinária beleza. eu sabia, e mesmo assim, ela derrota-me mais uma vez. sempre tímida, sempre vagamente misantropa, entra em palco e está de costas para nós, não diz mais que duas ou três palavras durante uma hora e meia, abana-se ao som da música e sabemos que está num mundo só dela, dentro da sua cabeça. mas quando começa a cantar, a redenção: ela está a cantar só para mim. a postura não mudou. ambas as mãos a segurar o micro, expressão sofrida, emocionada. mas eu juro que a vi rir por duas vezes, ela riu-se e afastou o rosto e não desafinou uma única vez.

eu gosto do álbum novo. da sua força agressiva, da sua estranheza scottwalkeriana, da sua sonoridade rica, capaz de me forçar a entrar num imaginário cnematográfico. gosto deste amadurecimento, desta divergência, deste envelhecimento. eu fui lá também à espera de me emocionar com a "Glory Box", descobrir se tocariam a "Mourning Air", curtir descaradamente de cada vez que reconhecesse uma música - e isso tinha eu a certeza absoluta, conhecia-as todas. eu só não esperava um assombro como uma "Wandering Star" quase a cappella, com malabarismo vocal no final que me fez soltar um "foda-se!" cheio de fôlego quando se fez silêncio. e um final pré-encore brilhante, com o que seguramente poderá ter sido o melhor momento da noite: "Threads". o meu pequeno animal anti-social, amor profundo do meu coração, que tem qualquer coisa de comum com o Matt Berninger*, com o dedo espetado na testa gemendo "i'm worn, tired of my mind", terminando a gritar a plenos pulmões "tired and bored, tired and bored, tired and bored". também eu, querida Beth. também eu.




* "my mind's not right" [Abel] | The National

 

 

posted by saturnine | 00:10 | 6 comments 

 

 

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. * ~ .♥. ~ * .

 

spot player special

 

 

 

 

~*. through the looking glass .*~

 

pale blue dot - sala de exposições

*

saturnine- diz que é uma espécie de portfolio

*

the woman who could not live with her faulty heart - arquivo escrito

menina tangerina - citrus reticulata deliciosa

os dias do minotauro - back to black

 

*

 

calamity.spot[at]gmail.com

 

 

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~*. rearview mirror .*~

 

 

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