terça-feira, 9 de outubro de 2007



The ballad of broken men (and I am also a broken man¹)


foi o Townes Van Zandt - ou o documentário "Be Here to Love Me" - que me levou até à imagem persistente do botão que é apertado: o filho mais velho, em entrevista posterior à morte do pai, testemunha que ele era aquele tipo de gajo fodido que conhecia muito bem os botões mais frágeis de cada pessoa. e depois apertava-os com muita força. ¤
o melhor de uma ideia é quando é suficientemente táctil para imprimir-se de imediato na memória segundo a clareza das imagens. algo se me afigurou absolutamente claro e evidente nesse momento: a metáfora do corpo enquanto acordeão. todo ele maleável, respiratório, coberto de botões à espera de ser apertados, para que através da música se afirme a sua razão de ser.
uma ideia persistente é também uma ideia resistente, que nunca cessa de (re)construir-se em pano de fundo. uma ideia fértil é uma ideia sem fim à vista. à semelhança da comida que fica a trabalhar no estômago (de certeza explorada e mal paga), a mim ficam-me as ideias a trabalhar na cabeça, gerando imagens sucessivas.
a tal ponto que eu, que como a Ramona A. Stone² sou uma artista e que, como tal, persigo métodos de investigação puramente intuitivos, líricos, caóticos, e que, por conseguinte, não percebo nada de métodos científicos (triste sorte!), me sinto quase capaz de anotar evidências e enumerar a Primeira Lei da Metáfora do Corpo Enquanto Acordeão:


primeira evidência: o pedal da embraiagem, quando pressionado com o pé, apenas desembraia o motor, permitindo mover a alavanca da caixa de velocidades; é apenas quando é libertado da pressão do pé que se processa a embraiagem do motor, passando a efeito a acção de mudança de velocidade;

segunda evidência: perante um ferimento de bala, ou semelhante, frequentemente o corpo humano alberga essoutro corpo estranho como garantia de sobrevivência, mantendo a vida sustentável num precário equilíbrio; é no momento da extracção do corpo estranho que se desencadeia a hemorragia que poderá ser fatal ao corpo humano que o alberga.

terceira evidência: no caso de alguns botões - como os que servem a função de ligar e desligar electrodomésticos diversos, como os rádios e televisores -, a pressão por si só não opera qualquer efeito no aparelho; a acção pretendida de ligar/desligar o aparelho só produz efeito no momento em que o respectivo botão é largado.


Primeira Lei da Metáfora do Corpo Enquanto Acordeão: a infelicidade, a dois, é uma forma deficiente e imperfeita da felicidade. o que dói não é o que tu me fazes - enquanto fazes, afirmas-te presente; é quando te vais embora, quando removes o dedo do botão que sustenta o caudal hemorrágico da minha ferida, que passa a doer o que tu me fizeste - afirmação pretérita da tua ausência.






© Tim Burton




¹ Segue: Algeria Touchshriek | David Bowie, Outside
² Segue: Ramona A. Stone | David Bowie, Outside






Etiquetas: , , ,


posted by saturnine | 00:18 |


---------------------------------------------------------------------------------------------------------------

15 Comentários:

Blogger bruno .b.c disse...

eh pá, s., ia começar pelo layout, mas depois ler a tua instalação científica sobre o botanar corpóreo penso duas vezes. (estou a pensar..) bom, como nada acrescento ao dito, desacrescento (o que é muito, note-se), e começo e findo pelo layout: bom regresso. (ainda melhor que a partida)

2:17 da manhã  
Blogger saturnine disse...

lol, o verdadeiro pensamento circular.

"instalação científica" é um bom nome para isto! mas eu percebo tão pouco das ciências que até falo em "enumerar" quando só existe um único número, que por natureza nãoprecisa ser distinguido dos demais... oh well. :)

2:32 da manhã  
Blogger bruno .b.c disse...

é justamente com esse rigor científico que se deve perspectivar uma noite de copos.

1:43 da tarde  
Blogger menina limão disse...

hey hey, ainda não li o post e não vou poder tão cedo como deves imaginar, mas AH! já estou no meu computador por sinal!!!!!!

como dizia, venho só para deixar um sorriso pelo novo look - está quase como quando o descobri e é estranho, mas muito bom. o teu blog é o dos pouquíssimos que consegue ser preto-bonito.

ah e claro (!!), esse título! onde é que eu já vi isso? hummm :P

e se o meu, assim muito de repente, virasse preto, como que em homenagem a...Black Is The New Blood? :P

6:39 da tarde  
Blogger saturnine disse...

preto-bonito é bonito. :') obrigada (reparaste na subtileza dos dois tons de preto? ok, ok, isto em RGB não funciona bem assim, mas este template é quase uma experiência rauschenbergiana - depois explico ao vivo - cof cof cof). estive quase quase para pôr aquele com que o conheceste mesmo, mas depois tive que lhe mexer. evolution.

acho muito bem que te vistas de preto também, em homenagem a mim. (ahahaha) mas atina, pá! é "Blood is new black"! órraite? órraite. :D

7:50 da tarde  
Blogger menina limão disse...

dois tons de preto? lol isso não existe, há preto e há cinzento.

ok, quero ouvir essa explicação. pode ser que te entales com o sushi.

homenagem a ti? hihi, oh yeah. the woman who changed my life. ohohoh

a "emenda" é um incentivo ao vermelho-sangue? :P

órraite dén.

10:47 da tarde  
Blogger saturnine disse...

pfff, designers de nova geração. acham que as cores vêm todas em pantones. :P experimenta ir comprar camisolas pretas de marcas diferentes, tecidos diferentes, em lojas diferentes... abrir-se-te-ão as portas para o universo rauschenbergiano. :D

11:49 da tarde  
Blogger tratado de botânica disse...

instalação científica sobre o botanar corpóreo...

eis como pode ser definida a poesia.

Está aterradoramente bela esta página. (corpo e alma)

2:01 da tarde  
Blogger saturnine disse...

:)

5:29 da tarde  
Blogger dcc disse...

olha lá, tu percebes de ciências sim! estava a ler e já agora: em relação à segunda das "evidências" há aquela coisa de um corpo estranho, ainda que albergado, poder tanto manter a vida sustentável como provocar complicações infecciosas. Não será tanto o caso das balas.
Também se pode vir a cagar os objectos que estavam albergados (objecto --> dejecto), que nem sempre é coisa simples, mas muitas vezes natural.
E ainda: lembrei-me agora também da pessoa que tinha um bocado de lápis no cérebro e que só muito tempo depois é que veio a ser descoberto e retirado, tinha umas dores de cabeça e começou a achar estranho. :)

6:57 da tarde  
Blogger saturnine disse...

oh, amigo, tão querido. :') pois percebo, estava só a fazer género. adiante, só mesmo tu para vires falar em cagar num post todo dramático-poético. B)

11:08 da tarde  
Blogger dcc disse...

Tavas no teca teca! Gosto! B)
Perdoa a escatologia. Mas, enfim, para o bem e para o mal, faz parte da vida. :)
Não achei "dramático-poético", achei dramático e poético, que é diferente. ;)

3:49 da tarde  
Blogger saturnine disse...

O TECA-TECA! LOL já não me lembrava disso. B') eu gosto de uma certa dose de escatologia, sabes? e comoves-me com essas palavras. :')

1:27 da manhã  
Blogger menina limão disse...

fuck. belo texto.

este teu tratado ajuda-me a cimentar a minha ideia de que talvez o instrumento mais sexy de um homem tocar seja o acordeão. (eu diria a concertina, é mais bonita) agora com essa imagem, não consigo resistir a afirmar a minha certeza.

o instrumento da mulher é tão óbvio e certo e inquestionável que nem vale a pena mencionar.

mas caso tenhas dúvidas, é o violoncelo.

1:39 da manhã  
Blogger saturnine disse...

que engraçado teres essa ideia. :) nunca tinha pensado no assunto, mas sei que pensei sempre que se pudesse ter aprendido a tocar algum instrumento seria o violoncelo o escolhido.

3:32 da tarde  

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial


spot player special




"us people are just poems"
[ani difranco]


*

calamity.spot[at]gmail.com



~*. through the looking glass .*~




little black spot | portfolio
Baucis & Philemon | tea for two
os dias do minotauro | against demons
menina tangerina | citrus reticulata deliciosa
the woman who could not live with her faulty heart | work in progress
pale blue dot | sala de exposições
o rosto de deus | fairy tales








---------------------------------------------------------------------------------------------------------------


~*. rearview mirror .*~


Maio 2003 . Junho 2003 . Julho 2003 . Agosto 2003 . Setembro 2003 . Outubro 2003 . Novembro 2003 . Dezembro 2003 . Janeiro 2004 . Fevereiro 2004 . Março 2004 . Abril 2004 . Maio 2004 . Junho 2004 . Julho 2004 . Agosto 2004 . Setembro 2004 . Outubro 2004 . Novembro 2004 . Dezembro 2004 . Janeiro 2005 . Fevereiro 2005 . Março 2005 . Abril 2005 . Maio 2005 . Junho 2005 . Julho 2005 . Agosto 2005 . Setembro 2005 . Outubro 2005 . Novembro 2005 . Dezembro 2005 . Janeiro 2006 . Fevereiro 2006 . Março 2006 . Abril 2006 . Maio 2006 . Junho 2006 . Julho 2006 . Agosto 2006 . Setembro 2006 . Outubro 2006 . Novembro 2006 . Dezembro 2006 . Janeiro 2007 . Fevereiro 2007 . Março 2007 . Abril 2007 . Maio 2007 . Junho 2007 . Julho 2007 . Agosto 2007 . Setembro 2007 . Outubro 2007 . Novembro 2007 . Dezembro 2007 . Janeiro 2008 . Fevereiro 2008 . Março 2008 . Abril 2008 . Maio 2008 . Junho 2008 . Julho 2008 . Agosto 2008 . Setembro 2008 . Outubro 2008 . Novembro 2008 . Dezembro 2008 . Janeiro 2009 . Fevereiro 2009 . Março 2009 . Abril 2009 . Maio 2009 . Junho 2009 . Julho 2009 . Agosto 2009 . Setembro 2009 . Outubro 2009 . Novembro 2009 . Dezembro 2009 . Janeiro 2010 . Fevereiro 2010 . Março 2010 . Maio 2010 . Junho 2010 . Julho 2010 . Agosto 2010 . Outubro 2010 . Novembro 2010 . Dezembro 2010 . Janeiro 2011 . Fevereiro 2011 . Março 2011 . Abril 2011 . Maio 2011 . Junho 2011 . Julho 2011 . Agosto 2011 . Setembro 2011 . Outubro 2011 . Janeiro 2012 . Fevereiro 2012 . Março 2012 . Abril 2012 . Maio 2012 . Junho 2012 . Setembro 2012 . Novembro 2012 . Dezembro 2012 . Janeiro 2013 . Janeiro 2014 .


---------------------------------------------------------------------------------------------------------------


~*. spying glass .*~


a balada do café triste . ágrafo . albergue dos danados . almanaque de ironias menores . a natureza do mal . animais domésticos . antologia do esquecimento . arquivo fantasma . a rute é estranha . as aranhas . as formigas . as pequenas estruturas do ócio . atelier de domesticação de demónios . atum bisnaga . auto-retrato . avatares de um desejo . baggio geodésico . bananafish . bibliotecário de Babel . bloodbeats . caixa-de-lata . casa de cacela . chafarica iconoclasta . coisa ruim . com a luz acesa . comboio de fantasmas . complicadíssima teia . corpo em excesso de velocidade . daily make-up . detective cantor . dias com árvores . dias felizes . e deus criou a mulher . e.g., i.e. . ein moment bitte . em busca da límpida medida . em escuta . estado civil . glooka . i kant, kant you? . imitation of life . isto é o que hoje é . last breath . livros são papéis pintados com tinta . loose lips sink ships . manuel falcão malzbender . mastiga e deita fora . meditação na pastelaria . menina limão . moro aqui . mundo imaginado . não tenho vida para isto . no meu vaso . no vazio da onda . o amor é um cão do inferno . o leitor sem qualidades . o assobio das árvores . paperback cell . pátio alfacinha . o polvo . o regabofe . o rosto de deus . o silêncio dos livros . os cavaleiros camponeses no ano mil no lago de paladru . os amigos de alex . Paris vs. New York . passeio alegre . pathos na polis . postcard blues . post secret . provas de contacto . respirar o mesmo ar . senhor palomar . she hangs brightly . some variations . tarte de rabanete . tempo dual . there is only 1 alice . tratado de metatísica . triciclo feliz . uma por rolo . um blog sobre kleist . vazio bonito . viajador


---------------------------------------------------------------------------------------------------------------


~*. the bell jar .*~



os lugares comuns: against demons . all work and no play . compêndio de vocações inúteis  .  current mood . filosofia e metafísica quotidiana . fruta esquisita menina aflita . inventário crescente de palavras mais-que-perfeitas . miles to go before I sleep . música no coração  .  música para o dia de hoje . o ponto de vista dos demónios . planos para dominar o mundo . this magic moment  .  you came on like a punch in the heart . you must believe in spring


egosfera: a infância . a minha vida dava um post . afirmações identitárias . a troubled cure for a troubled mind . april was the cruellest month . aquele canto escuro que tudo sabe . as coisas que me passam pela cabeça . fruto saturnino (conhecimento do inferno) . gotham style . mafarricar por aí . Mafia . morto amado nunca mais pára de morrer . o exílio e o reino . os diálogos imaginários . os infernos almofadados . RE: de mail . sina de mulher de bandido . the woman who could not live with her faulty heart . um lugar onde pousar a cabeça   .  correio sentimental


scriptorium: (des)considerações sobre arte . a noite . and death shall have no dominion . angularidades . bicho escala-estantes . do frio . do medo . escrever . exercícios . exercícios de anatomia . exercícios de respiração . exercícios de sobrevivência . Ítaca . lunário . mediterrânica . minimal . parágrafos mínimos . poemas . poemas mínimos . substâncias . teses, tratados e outras elocubrações quase científicas  .  um rumor no arvoredo


grandes amores: a thing of beauty is a joy forever . grandes amores . abraços . Afta . árvores . cat powa . colectânea de explicações avulsas da língua portuguesa  .  declaração de amor a um objecto . declaração de amor a uma cidade . desolação magnífica . divas e heróis . down the rabbit hole . drogas duras . drogas leves . esqueletos no armário . filmes . fotografia . geometrias . heart of darkness . ilustraçãoinício . matéria solar . mitologias . o mar . os livros . pintura . poesia . sol nascente . space is the place . the creatures inside my head . Twin Peaks . us people are just poems . verão  .  you're the night, Lilah


do quotidiano: achados imperdíveis . acidentes quotidianos e outros desastres . blogspotting . carpe diem . celebrações . declarações de emergência . diz que é uma espécie de portfolio . férias  .  greves, renúncias e outras rebeliões . isto anda tudo ligado . livro de reclamações . moleskine de viagem . níveis mínimos de suporte de vida . o existencialismo é um humanismo . só estão bem a fazer pouco


nomes: Aimee Mann . Al Berto . Albert Camus . Ana Teresa Pereira  . Bauhaus . Bismarck . Björk . Bond, James Bond . Camille Claudel . Carlos de Oliveira . Corto Maltese . Edvard Munch . Enki Bilal . Fight Club . Fiona Apple . Garfield . Giacometti . Indiana Jones . Jeff Buckley  .  Kavafis . Klimt . Kurt Halsey . Louise Bourgeois . Malcolm Lowry . Manuel de Freitas . Margaret Atwood . Marguerite Duras . Max Payne . Mia Couto . Monty Python . Nick Drake . Patrick Wolf  .  Sophia de Mello Breyner Andresen . Sylvia Plath . Tarantino . The National . Tim Burton


os outros: a natureza do mal . amigos . dedicatórias . em busca da límpida medida . retalhos e recortes



---------------------------------------------------------------------------------------------------------------

...it's full of stars...


This page is powered by Blogger. Isn't yours?

blogspot stats