sábado, 15 de abril de 2006



Como diria o Will Oldham, como diria a outra louca da casa, a Emily Dickinson: Them the letting go...


Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.

Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.

Rui Pires Cabral





Nunca veremos a noite escura. Não há lugar onde os meus passos possam tentar coincidir com os teus. Antes tínhamos as palavras, mas por tão pouco tempo tivemos as palavras, que também já não coincidem. E o que se faz, se se carrega esse naco de carne sangrento nas mãos, à procura de um lugar? Nunca saberás se eu sei usar uma camisa (e ela está há tantos dias pendurada do lado de fora do armário, sem corpo que a anime).
Nunca sei arrumar as coisas que perdem o seu caminho. Tenho um quarto cheio de objectos indigentes, a que não sei o que fazer, evidência de um cansaço de ser fragmentária, repartida por um mundo a que não pertenço. Nunca conhecerás o aspecto das minhas estantes, ou a ordem afectiva segundo a qual ordeno os livros e os discos, o lugar privilegiado que ocupa o Manuel António Pina ou o peso d'O Medo na mesinha de cabeceira. Nunca verás o que trazia afinal na carteira naquele dia, um livro do Rui Pires Cabral acabado de comprar (mais uma vez a sustentação da espera com as palavras, e a certeza de quem em breve já mais nenhuma palavra sustentaria o mundo).
Nunca saberás qual é o meu fruto preferido, nem o mal que me fazem todos os frutos, como, de resto, me faz mal tudo aquilo de que gosto. Nunca verás a cicatriz que tenho no joelho esquerdo, de ser este desastre ambulante que se fere em todas as esquinas do mundo (mundo, remove o teu braço/deste inútil cavidade que dói). Nunca verás as cicatrizes que tenho nos pulsos nem saberás nada do dia em que as fiz, desconhecerás para sempre a sua forma e os seus porquês. Nunca saberás que todas as minhas palavras são inúteis, que não me interessa qualquer dom, que eras tu o único bocadinho de humanidade que eu queria. Nnunca partilharemos lugares lado a lado no cinema, nunca ouviremos a música dos mesmos discos, nem dos mesmos concertos, nunca respiraremos o mesmo fumo azulado dos cigarros atrás de cigarros, nunca daremos passeios pelos lugares que nos conhecem e eu nunca terei um retrato teu.
Nunca saberás o que foi feito (e desfeito) de mim enquanto crescia, aquilo que me roubaram, aquilo em que me tornei, e ao que regressei. Nunca saberás de como tive a morte dentro de casa e a morte dentro do corpo, como não tive tempo de saber o que era ser cuidada, antes de desejar que nunca nenhuma mão tocasse esta pele. Nunca saberás como eu conheço tão bem a incapacidade e a paralisia, e o desejo de existir à parte do corpo. Nunca saberás como escavei um abismo à força de unhas e dentes, nele me deitei e me cobri e de terra, e um dia subi pelas suas paredes para voltar a cheirar a manhã. Eu quis voltar porque caminho desde o início dos tempos para um lugar onde tu estás.
E já não saio de casa para não ver ninguém, porque as pessoas me dizem que estou a dar cabo dos olhos. O que é normal, bem visto que a tristeza é um bicho que se traz agarrado às pálpebras e que vai comendo o olhar em redor das cavidades oculares.
E nunca saberás porque me encontraste a ler a Virginia Woolf naquele dia, nunca saberás como o que trago por dentro é um desejo inútil, uma vontade sem propósito de que a minha vida me pertença. O meu desejo é o que Sileno sabe que não se poderia desejar. O que desejo é a coragem que me falta para esse gesto de recusa, quando o estar aqui me é insuportável. Sobreviverei a todos, ironicamente. Hão-de desaparecer primeiro todas as pessoas da minha vida. E eu sobreviver-lhes-ei porque o mundo não afrouxa a sua mão sobre a minha garganta enquanto aqui estiverem. Ssobreviver-lhes-ei para que depois possa respirar finalmente. Mundo, retira a tua mão agora/para que eu possa cair de borco.




My life has been stolen from me.
I am living in a town I have no wish to live in. I am living a life I have no wish to live.
(...)

Dear Leonard...
to look life in the face,
always to look life in the face
and to know it for what it is
at last to know it
to love it for what it is...
and then
to put it away.
















e eu, que de tudo faço ferida, penso agora no Jean Genet

“na origem da beleza está unicamente a ferida, singular, diferente para cada qual, escondida ou visível, que todos os homens guardam dentro de si, preservada, e onde se refugiam ao pretenderem trocar o mundo por uma solidão temporária mas profunda.
fora de miserabilismos. a arte de Giacometti parece querer revelar essa ferida secreta dos seres e das coisas, para que ela os ilumine.”




E eu sei, eu sei que precisas desse lugar só teu, onde há uma paz possível, que precisas do conforto dessa ferida de onde retiras o pão, que precisas da luz dessa ferida a inundar uma artéria e a cobrir de algum sentido as coisas, e sei que é por isso que nunca voltas aos lugares de onde partes e que é por isso que não cheguei a ser lugar que te bastasse. Eu sei o que faltou. As palavras e o medo são as desculpas do costume. Éé certo que o amor não basta, e na maioria das vezes não, o amor não aguenta tudo, nem a ausência, mas antes de tudo isso sabe-se sempre que tudo são pretextos, que o que falha primeiro é o próprio desamor. Nunca saberás que eu nunca teria arriscado, como nunca teria dado um passo, um suspiro, teria preferido nunca arriscar o amor tal era a perfeição da tua existência em redor de tudo, tal era a certeza da devastação de perder-te dentro o mundo. Nunca saberás como eu nunca teria ido, se não viesses buscar-me. Eu conheço todos os lugares ermos do mundo, à custa de ser largada a meio do caminho de onde me vêm buscar. Sou bicho acossado, desconfiado da bondade de estranhos.
Entretanto, enquanto espero, amar-te-ei/apesar de ti, e apesar da ferida. Esse amor sobreviver-te-á e eu sobreviverei a todos os outros, porque só sei morrer onde não haja quem me veja falhar.




Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

Mia Couto
Poema da despedida





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posted by saturnine | 17:01 |


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