segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007




Afta
poemas e poetas para pôr dedos nas feridas


little black spot
2007



*falta a Adília Lopes, a Alejandra Pizarnik, o Al Berto, o Herberto Hélder, o Casimiro de Brito, o Manuel António Pina... e tantos outros que ninguém me trouxe nem eu consegui procurar. fiz uma selecção de entre as minhas sugestões e as que me chegaram e enquanto seleccionava um tecido se inflamava, e inevitavelmente não aguentei mais. podem continuar a enviar poemas.






imagem gentilmente oferecida daqui





Bebemos às escondidas
Em copos intactos
Vinho que talvez
Fosse para nós.

Bebemos às escondidas
Por entre as turbas
Que se moviam para o sol.

Era a saída dos nossos labirintos
E faltava-nos firmeza nas mãos.

As delícias do azul reservavam-se para a colina,
O cimo das árvores
E o ocioso gavião.

Tivemos a nossa hora e julgámos possível
Proteger as planícies e o próprio espaço.

Amámos às escondidas
E soubemos que não pode curar-se
Em pouco tempo alegria excessiva.

Guillevic




***




Senti que estava às portas do meu reino,
Entre as sombras brilhavam as paisagens
Que os meus sonhos antigos desejavam.
Mas o terror expulsou-me das imagens
Onde os meus membros já penetravam.

Sophia de Mello Breyner




***



Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Sophia de Mello Breyner Andresen




***



The Woman Who Could Not Live with Her Faulty Heart

I do not mean the symbol
of love, a candy shape
to decorate cakes with,
the heart that is supposed
to belong or break;

I mean this lump of muscle
that contracts like a flayed biceps,
purple-blue, with its skin of suet,
its skin of gristle, this isolate,
this caved hermit, unshelled
turtle, this one lungful of blood,
no happy plateful.

All heart float in their own
deep oceans of no light,
wetblack and glimmering,
their four mouths gulping like fish.
Hearts are said to pound:
this is to be expected, the heart's
regular struggle against being drowned.

But most hearts say, I want, I want,
I want, I want. My heart
is more duplicitous,
though no twin as I once thought.
It says, I want, I don't want, I
want, and then a pause.
It forces me to listen,

and at night it is the infra-red
third eye that remains open
while the other two are sleeping
but refuses to say what it has seen.

It is a constant pestering
in my ears, a caught moth, limping drum,
a child's fist beating
itself against the bedsprings:
I want, I don't want.
How can one live with such a heart?

Long ago I gave up singing
to it, it will never be satisfied or lulled.
One night I will say to it:
Heart, be still,
and it will.

Margaret Atwood




***




Artéria, tu tens razão

A única coisa que eu aprendi meu Deus
a sofrer a desilusão duma passagem de rua
ficar com o lado esquerdo a ajudar a falar
mas a única coisa que eu aprendi
Que um bocado de vidro inundasse de luz uma artéria
eu era um bocado de vidro que não inundasse de luz
artéria nenhuma
era uma desilusão a olhar para mim
e dizer movimento de rua
é assim movimento de rua
aí está nós cá estamos nós somos tal e qual
uma desilusão em passagem.
Tinha era ainda mais que tudo isso
um inchaço dum vidro em bocado
espetado em cima de pedra.
Havia um estendal de desilusão a devorar-me
todo com os olhos
eu era uma continuação do meu ser.
Onde um simulacro estava a vantagem
de uma desilusão.
Eu não
eu cá.
Que um cá estamos considerasse ou não
eu não tinha nada com isso
Eu fum, eu...
Ah,
Havia é que era eu cá estamos nada disso
eu cá não eu nada eu não tinha eu não tenho
tu quê
nós consideramos.
Onde punha fum
tudo por dentro era duma urania
tudo por dentro era duma constipação palpável
pelo sentido da pedra e do bocado de vidro.
Não eu cá não vou.
Quem olha descontenta.

António Gancho




***



Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.

Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.

Rui Pires Cabral




***



Pergunto-me desde quando
deixou de haver futuro
nas janelas.
Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras
no Verão.

Rui Pires Cabral




***




Eu gosto da tua cara contra o fundo
circunstancial, ocupas o espaço por onde a rua
se intromete, as tuas pernas magras no passeio
como as de um fantoche que só mexe os braços.

Ao canto uma árvore fazia sombra pequena
na desconversa. Estavas mais ou menos
a dizer: nenhum futuro neste sofrimento.
O teu melhor ângulo.

Rui Pires Cabral





***




Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento. Uma distância que só serviria
aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava. Às vezes era só
a minha vontade, outras vezes era toda a frase
do meu nome.

Rui Pires Cabral




***




Terceiro direito

O inferno, aqui. Deve ser normal.
Um choro de criança, no andar
de cima, sobrepõe-se à música
que não ouço e que é talvez de Brel
(nenhum quarteto de Mozart serviria agora

Há dias assim. Os guindastes
da insónia não seguram a voz, desastre
anunciado pela teimosia de pássaros
suburbanos. Coisas de muito esquecer,
se eu pudesse. Mas o corpo hesita,

volta a ser o envelope vazio
de um destino por assinar - e que
nada tem, neste momento, de «literário»,
Sinto a luz na garganta, sufoco
discretamente, alheio ao excesso .
de imagens que me traz o dia. ,
A alegria, se quiserem, fica para mais
tarde. Aqui, de novo, morre-se muito mal

Manuel de Freitas




***




Pedaços de vinil com lama

Devia ser o disco mais ouvido:
a Quinta Sinfonia, numa gravação
de Klemperer. As manhãs
e as tardes auguravam um futuro
melhor, prendados costumes
que depressa perdi. Já então olhava
para a taberna da Ana,
enchendo a janela do meu quarto.
Tinha medo a sombra, do silêncio,
adivinhando em cada passo o monstro
que me habitava. E lia, para não pensar,
desacreditados escritores franceses.

Um dia, de tanto o amar,
peguei no disco e quebrei-o
em pequenos pedaços de vinil
— para doerem mais, melhor.
Mantive, não sei bem porquê,
a dura capa de cartão,
essa fúnebre alegoria da infância.
E o que sobrou do disco foi pararao ribeiro junto à casa dos meus pais.


Mais tarde, o ribeiro com hortas
de domingo à volta foi sufocado pelo terror
de um aldeamento, versão provinciana
de condomínio fechado, num mundo
em que são cada vez mais as portas.
Beethoven, esse, quase deixou
de me comover, soterrado como as rãs
pelas mãos invisíveis de quem mata.

O que me comove, passado tanto
tempo, é perceber que fiz esse disco
o mesmo que faço e volto a fazer
aos corpo que julgo amar:

parti-los muito devagar, para
que doam sempre um pouco mais.

Manuel de Freitas




***




Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite –
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido – não ter medo de nada. Pudesse

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo –
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi –
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever esta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema.

Maria do Rosário Pedreira




***




Se te pergunto o caminho, falas-me das rochas
que mortificam o dorso das montanhas; e do ranger
da água no galope dos rios; e das nuvens que coroam
as paisagens. Contas que a noite geme nas fendas

dos penhascos porque as cidades apodrecem junto
às margens; que o vento é um chicote que desaba
os chapéus; que a terra treme; que o nevoeiro cega; e
que as casas onde o medo se extinguia na longa bainha do
vestido da mãe cederam ao peso das mágoas dentro delas.

E, se assim mesmo quero ir, dizes que os meus passos
se perderiam no comprimento das sombras – que não há
mapas para os sonhos de quem morre de amor; e que
os ramos debruçados dos muros em ruínas rasgariam
a carne – como um sorriso rasga o tecido de um rosto.

Se não me amas, porque me avisas da dor?

Maria do Rosário Pedreira




***




Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo

este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido

está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.

Maria do Rosário Pedreira




***



Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário Pedreira




***




Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

Mia Couto




***




Debrucei-me na janela do inferno
e não vi nada que me horrorizasse;
pareceu-me um lugar igual aos outros,
cheio de gente e coisas. Alguém
do inferno convidou-me a entrar.
Não me lembro quem era, ou se eram vários,
nem o que me disseram lá de dentro
ou se aquelas pessoas sorriam,
se havia algum que se lamentasse,
nem se desconfiei em algum momento.
Procurei e achei a porta do inferno,
abri a porta do inferno, entrei
e desde então vivo no inferno.
É um lugar igual a outro qualquer
cheio de gente e coisas. Mas
sei que só pode ser o inferno
porque neste lugar não estás comigo.

Amalia Bautista




***




Sempre acreditei que eram as palavras
que saíam da minha boca, e que só elas
podiam apaziguar a minha morte.
Hoje sei que da minha boca sai um fio
transparente e tenaz como uma insónia
que te amarrou à minha vida para sempre.

Amalia Bautista




***




Todos precisamos que nos amem.
Porém, alguns infelizes,
não sabemos viver para outra coisa.

Amalia Bautista




***




Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava




***




A pedir lume

Também eu andei assim
a pedir lume
como se o não tivesse. Como se os cigarros
não fossem mais que um pretexto
para esconder da dissolução
o medo.
Também eu andei assim
na rua
procurando um rosto que me desabrigasse
e erguesse ao lodo sublime
da água.
Procura-me tu
agora
nos bolsos
oh tão vagarosa estrangeira
mais que as chaves de casa.

José Carlos Barros




***




aos poucos o teu nome
foi infectando todos os nomes
de todas as coisas e o mundo
ficou todo iluminado sem cantos
escuros para me esconder
de ti.
(...)
não conheço
os lugares onde não estás.

Pedro (loose lips sink ships)




***



Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.

Albano Martins




***



Respiração Assistida

Eu vi a morte
de noite . névoa branca .
entre os frascos do soro
rondar a minha cama
era um trasgo
e como tal metera-se
pelas frinchas; noutra versão
coando-se através
dos nós da madeira
ou noutra ainda
imitando à perfeição
o gorgolejar da água
nos ralos: eu tremia
covardemente enquanto
ela raspava a parede
com unhas muito lentas
eu vi? ouvi a morte?
com toda a probabilidade
e por instantes
era ela . luz negra .
tentando cegar-me

Francisco Assis Pacheco




***




Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte




***




Os sentimentos atrasam,
as paixões atrasam,
as instituições atrasam,
está tudo a mais, nesse demais sempre a pesar sobre a existência, ela própria uma ideia a mais
(...)
Porque sou eu quem fere e destrói, parte, dá,
escolhe, decide, reparte,
e todo o corpo é inanimado,
na origem absolutamente inanimado,
e não há corpo nem espírito,
qualquer apelo errante de vida,
nada a não ser o silêncio e a morte
tuberosa da meia-noite,
revista de antes, da outra vida,
mas por agora acabou-se,
o peso caído do impossível
que pesa aí dia e noite
já não pesará mais antes de entrar
a inenarrável cacofonia
dos seres em perpétua insurreição
enfrentados por aquele que parte, dá e reparte.
Eu não reparto, eu fujo
da vida.
(...)

Antonin Artaud




***




Somos de natureza contrária.
Um de nós pode destruir o outro, mas só por fora, uma onda que vem
de muito longe, demora a chegar
à praia, ao sol que sossobra
no lugar onde nós estamos,
entregues, entristecidos. Dentro,
no interstício de silêncio
ameaçado pela despedida, sempre
de despedida ameaçado, nenhum
de nós será destruído nunca,
a memória da rua com plátanos,
o pólen mordente da primavera,
o cântico dos pardais. Não,
eu não quero esse amor indeciso
que sossobra num frio inebriante:
cada um com o outro tenta conservar
o seu ser, a identidade que sorri
na janela do quarto que fica por fechar.

Joaquim Manuel Magalhães




***




não sei se respondo ou se pergunto.
sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
de súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
a minha ebriedade é a da sede e a da chama.
com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
o que eu amo não sei. amo em total abandono.
sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

antónio ramos rosa




***




Eu sei que não virás. O quarto
seria este, estes os meus braços, aquela
a jarra com as flores.
Que lindo cachecol. O colete fica-te bem.
Sabes o que é o amor? Poder e não poder
dizer o teu nome sem que me rebente
dentro do estômago, dos intestinos, dos pulmões
a faca de infecções de que poderei morrer.

Joaquim Manuel Magalhães




***




Estavas de costas e eu toquei-te num ombro.
Demoraste três anos a voltar-te, o sol caía.

Joaquim Manuel Magalhães




***




(...)
promíscuos tombam num tropel de corpos,
de pernas, braços, bocas e cabelos,
ancas e mãos, de línguas e gemidos,
uivos de espasmo, seios e tremuras.
o sexo é tudo o que se entrega e tudo
o que num ritmo seguro arranca
sacões em que se ajusta mais ao fundo
e túrgido se escoa e recomeça.
(...)

jorge de sena




***




O meu projecto de morrer é o meu ofício
O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo

Daniel Faria




***




Olhamos o amor e a morte
desdobrando-se no tempo
nas rugas das suas estações
demasiado tempo mantemos
a ilusão de uma diferença
mas o tempo comprime-se
naquele momento breve
em que a nossa vontade
julga poder prescindir dele.

Carlos Alberto Machado




***




De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: "o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração."

Carlos de Oliveira




***




«Se for consultar o psicanalista, confio em Deus que ele permita que se sente também ao nosso lado um dermatologista, pois sinto que tenho cicatrizes nas mãos por tocar em certas pessoas. (...) Pus-lhe a mão em cima da cabeça. Certas cabeças, certas cores, certos contactos com a pele humana deixam-me cicatrizes para sempre.»

J.D. Salinger





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posted by saturnine | 00:00 |


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6 Comentários:

Blogger m disse...

kiss kiss, Johnny Guitar.


VIENNA: Há cinco anos apaixonei-me por um homem. Não era bom nem mau, mas eu amava-o. Quis casar com ele, ajudá-lo a construir um futuro.
JOHNNY: Mereciam ter sido felizes.
VIENNA: Mas não foram. Separam-se. Ele não se via amarrado a um lar.
JOHNNY: Felizmente ela foi esperta e livrou-se dele.
VIENNA: Claro que foi. Aprendeu, daí em diante, a não se apaixonar por ninguém.
JOHNNY: Foi há tanto tempo… Com certeza que, entretanto, na sua vida houve outros homens.
VIENNA: Os suficientes.
JOHNNY: O que aconteceria se esse homem voltasse?
VIENNA: Quando um fogo se apaga, o único que resta são cinzas.
JOHNNY: Quantos homens já esqueceste?
VIENNA: Tantos quantos as mulheres de quem te lembras.
JOHNNY: Não me deixes.
VIENNA: Ainda aqui estou.
JOHNNY: Diz-me qualquer coisa bonita.
VIENNA: Que queres que eu te diga?
JOHNNY: Mente-me. Diz-me que esperaste por mim todos estes anos.
VIENNA: Todos estes anos esperei por ti.
JOHNNY: Diz-me que morrerias se eu não tivesse voltado.
VIENNA: Tinha morrido se não tivesses voltado.
JOHNNY: Diz-me que me amas como sempre te amei.
VIENNA: Amo-te como sempre te amei.

6:39 da tarde  
Blogger Lord of Erewhon disse...

Escreve-se bem a língua portuguesa em poesia... mas uma tremenda despotenciação se vai dando: as gerações «seguintes» não conseguem superar as anteriores... Declínio? Provavelmente: hoje vive-se com conforto a mais... faltam todas as sortes de sofrimento de que falava Rimbaud na Carta do Vidente!

Querer ser poeta não basta.

3:05 da tarde  
Blogger AtlantidaLost disse...

Vento gélido que atravessas com
os dedos de cristal...
Olhos de lince,
dilaceras os banquetes de carne festiva nos desertos da memória...
Derretes horas para avivares o grande masturbador...
Pintas de cores garridas
o sangue que jorra das gavetas
forradas de sonhos...
Desdenhas o amor como se fosse a única compensação da tua eterna vida...

Lostinatlantida

Para ti que desconheço...

www.lostinatlantida.blogspot.com

3:52 da tarde  
Blogger saturnine disse...

lord of erewhon, não concordo nada!

12:49 da manhã  
Blogger Vieira Calado disse...

Penso que se trata dum blog colectivo.
De todas, as maneiras é muito bom.

11:07 da tarde  
Blogger lena disse...

adorei passar por aqui, tens poesia bem escolhida e muito boa

posso oferecer-te poesia de poetas que fazes referencia, pois são a minha paixão

um blog que encontrei e com muito boa qualidade

parabéns

e parabéns está também a poesia, tão bem representada nos poetas que foram a tua primeira escolha

obrigada pelas partilhas

um abraço

lena

3:07 da tarde  

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~*. spying glass .*~


a balada do café triste . ágrafo . albergue dos danados . almanaque de ironias menores . a natureza do mal . animais domésticos . antologia do esquecimento . arquivo fantasma . a rute é estranha . as aranhas . as formigas . as pequenas estruturas do ócio . atelier de domesticação de demónios . atum bisnaga . auto-retrato . avatares de um desejo . baggio geodésico . bananafish . bibliotecário de Babel . bloodbeats . caixa-de-lata . casa de cacela . chafarica iconoclasta . coisa ruim . com a luz acesa . comboio de fantasmas . complicadíssima teia . corpo em excesso de velocidade . daily make-up . detective cantor . dias com árvores . dias felizes . e deus criou a mulher . e.g., i.e. . ein moment bitte . em busca da límpida medida . em escuta . estado civil . glooka . i kant, kant you? . imitation of life . isto é o que hoje é . last breath . livros são papéis pintados com tinta . loose lips sink ships . manuel falcão malzbender . mastiga e deita fora . meditação na pastelaria . menina limão . moro aqui . mundo imaginado . não tenho vida para isto . no meu vaso . no vazio da onda . o amor é um cão do inferno . o leitor sem qualidades . o assobio das árvores . paperback cell . pátio alfacinha . o polvo . o regabofe . o rosto de deus . o silêncio dos livros . os cavaleiros camponeses no ano mil no lago de paladru . os amigos de alex . Paris vs. New York . passeio alegre . pathos na polis . postcard blues . post secret . provas de contacto . respirar o mesmo ar . senhor palomar . she hangs brightly . some variations . tarte de rabanete . tempo dual . there is only 1 alice . tratado de metatísica . triciclo feliz . uma por rolo . um blog sobre kleist . vazio bonito . viajador


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~*. the bell jar .*~



os lugares comuns: against demons . all work and no play . compêndio de vocações inúteis  .  current mood . filosofia e metafísica quotidiana . fruta esquisita menina aflita . inventário crescente de palavras mais-que-perfeitas . miles to go before I sleep . música no coração  .  música para o dia de hoje . o ponto de vista dos demónios . planos para dominar o mundo . this magic moment  .  you came on like a punch in the heart . you must believe in spring


egosfera: a infância . a minha vida dava um post . afirmações identitárias . a troubled cure for a troubled mind . april was the cruellest month . aquele canto escuro que tudo sabe . as coisas que me passam pela cabeça . fruto saturnino (conhecimento do inferno) . gotham style . mafarricar por aí . Mafia . morto amado nunca mais pára de morrer . o exílio e o reino . os diálogos imaginários . os infernos almofadados . RE: de mail . sina de mulher de bandido . the woman who could not live with her faulty heart . um lugar onde pousar a cabeça   .  correio sentimental


scriptorium: (des)considerações sobre arte . a noite . and death shall have no dominion . angularidades . bicho escala-estantes . do frio . do medo . escrever . exercícios . exercícios de anatomia . exercícios de respiração . exercícios de sobrevivência . Ítaca . lunário . mediterrânica . minimal . parágrafos mínimos . poemas . poemas mínimos . substâncias . teses, tratados e outras elocubrações quase científicas  .  um rumor no arvoredo


grandes amores: a thing of beauty is a joy forever . grandes amores . abraços . Afta . árvores . cat powa . colectânea de explicações avulsas da língua portuguesa  .  declaração de amor a um objecto . declaração de amor a uma cidade . desolação magnífica . divas e heróis . down the rabbit hole . drogas duras . drogas leves . esqueletos no armário . filmes . fotografia . geometrias . heart of darkness . ilustraçãoinício . matéria solar . mitologias . o mar . os livros . pintura . poesia . sol nascente . space is the place . the creatures inside my head . Twin Peaks . us people are just poems . verão  .  you're the night, Lilah


do quotidiano: achados imperdíveis . acidentes quotidianos e outros desastres . blogspotting . carpe diem . celebrações . declarações de emergência . diz que é uma espécie de portfolio . férias  .  greves, renúncias e outras rebeliões . isto anda tudo ligado . livro de reclamações . moleskine de viagem . níveis mínimos de suporte de vida . o existencialismo é um humanismo . só estão bem a fazer pouco


nomes: Aimee Mann . Al Berto . Albert Camus . Ana Teresa Pereira  . Bauhaus . Bismarck . Björk . Bond, James Bond . Camille Claudel . Carlos de Oliveira . Corto Maltese . Edvard Munch . Enki Bilal . Fight Club . Fiona Apple . Garfield . Giacometti . Indiana Jones . Jeff Buckley  .  Kavafis . Klimt . Kurt Halsey . Louise Bourgeois . Malcolm Lowry . Manuel de Freitas . Margaret Atwood . Marguerite Duras . Max Payne . Mia Couto . Monty Python . Nick Drake . Patrick Wolf  .  Sophia de Mello Breyner Andresen . Sylvia Plath . Tarantino . The National . Tim Burton


os outros: a natureza do mal . amigos . dedicatórias . em busca da límpida medida . retalhos e recortes



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...it's full of stars...


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