domingo, 23 de novembro de 2003



carta a um amigo habitual


«Certas noites de regressos têm-se tornado cada vez mais frequentes, e costumo perguntar-me se o tempo terá parado e viveremos meros ecos. Passamos duas horas no bar de janelas redondas, e vamos espreitando reminiscências de um passado difuso e constrangido. A conversa precipita-se e derrapa numa ou noutra escarpa desse abismo voltado para o mar que é este lugar distantes onde nos tacteamos, zunindo o vento de Agosto lá fora. É quando os olhares se cruzam e a conversa se tece no silêncio, dentro do olhar, onde se misturam as nossas viagens desencontradas até ao regresso último a esta praia deserta, exilada do mundo. Precipitam-se também os cigarros nervosos, tornando-se o corpo das mãos que na sua vida íntima não sabem onde pousar. Fecho os olhos e quase tenho as mãos sobre o teu pescoço. Depois sorris vagamente, estavas a falar de uma música qualquer de que eu já não me lembro, em frases que percebo que não ouvi. Não tenho onde pousar o olhar nesses momentos, e imagino-me então frequentemente do lado de fora da escotilha, desenhando pegadas na areia, espreitando a noite.

O céu de Agosto é o nosso céu, temos o nome escrito algures em pontinhos brilhantes que só se vêem ocasionalmente, em alguns lugares do sul. Depois falo-te dos meus últimos contos, desenrolo as histórias que me nascem dos dedos, tu fascinas-te pela minha escrita mas escondes sempre os mundos por onde ela te leva a passear. Segues tudo em silêncio, enquanto eu visto um corpo de personagem. Acabámos por resgatar do fundo do poço alguma conversa que me faz revolver as entranhas. Parece sempre que nos vemos pela primeira vez, com a mesma estranheza. Deixamos que a acidez dessas conversas morra interminada como a rebentação das ondas no fim da maré. O negro explode lá fora, perco o receio de te falar das paragens sombrias e dos túneis desérticos que visitei. Trago postais ilustrados do Inferno, assinados agora com um sorriso, e tu seguras-me na mão como quem se certifica que regressei inteira.

Não há espaço entre nós. Viramo-nos do avesso e encontramo-nos dentro um do outro. Não há pontes para atravessar, não há paisagem que possa contemplar. Temos um porto de abrigo sob o olho da tempestade, onde vemos estalar as frestas do Universo.
Tudo o que te peço nesses momentos é um reflexo, um entendimento, um brilho qualquer que me diga que o que trago não é só para mim. Se fecho os olhos vejo-te sorrir na iminência dessa brilho. Enquanto me pedes que não cinja os meus círculos de escuridão, sinto-me renascer perto de ti. Une-nos o silêncio, nos momentos em que ambos, por razões tão díspares como a cor dos nossos olhos, o procuramos, e encontramo-nos na solidão. Talvez por isso o silêncio se tornou efígie da perfeição, e não são precisas palavras para que leias na minha pele o ávido desejo de um beijo teu.»


6 de Agosto de 2001. quando ainda acreditava que os regressos eram possíveis. quando não sabia que destas pequenas mortes pouco sobra para continuar.





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posted by saturnine | 16:00 |


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