há dias em que está o mundo todo ao contrário. e de pernas para o ar, sobe-nos o sangue à cabeça, falta o oxigénio no cérebro, nenhum dos sinais vitais está onde deve estar. o corpo resiste, mas sucumbe. o que eu queria era
ir-me embora para Pasárgada. lá sou amiga do rei e os amigos não são uma ficção credível, mas distante.
em dias assim, todos ao contrário, eu preferia ser uma história, uma personagem dentro de uma história. o Mário Rui de Oliveira diz que
"um amigo é uma história que nos salva". e eu sei nadar muito bem, mas em dias assim, todos ao contrário, o assombro do mar leva a melhor e apetece deixar-me ir: afogar, porque não. em dias assim, os amigos, as histórias, embarcações inatingíveis, só o sal na boca, o sal nos olhos, o cansaço nos membros, a derrota a puxar para o fundo como uma âncora.
* referência a António Lobo AntunesEtiquetas: fruta esquisita menina aflita, níveis mínimos de suporte de vida