quarta-feira, 26 de novembro de 2003




enquanto escrevia o post anterior, não tinha reparado ainda nisto:

Carregadas de dedos e de pálpebras
avançavam para mim
do canto escuro e de outros sítios
improváveis
à luz fria de novembro
o mais terno dos meses
afinal



Luís, tu sabes na natureza desse canto escuro e sabes da matéria do frio de inverno. :)





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domingo, 26 de outubro de 2003



o canto escuro


ora hoje deu-me para a melancolia. abri a porta, soltou-se o escuro, e lá dentro o chamamento inconfundível daquele canto que sabe tudo. é um gesto que não devo. que não posso. mas por conforto de saudade entro e o canto reconhece-me. fala-me de mim porque nenhum outro lugar me conhece tão bem como o abismo que trago por dentro dos olhos.





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segunda-feira, 13 de outubro de 2003




Re: Re:

o canto escuro do quarto, conhece-lo bem
é sua a mesma matéria triste dos meus ombros
e eu já não reconhecia esse canto, já não sabia
que as portas portas fechadas rangem ao abrir
e lá do fundo um rumor se passeia pelas paredes
porque as mesmas sombras habitam o seu negro
quando entro
não sei de mim
mas ele sabe
esse canto
o que te assombra e fala contigo,
aquele a quem te confessas,
aquele que sabe tudo
.





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segunda-feira, 12 de janeiro de 2004




[para o Luís]

porque Janeiro é agreste e frio, e é rude o próprio contorno das palavras que meigas se propõem. porque é inverno, tempo de lutar com os fantasmas, que o ano inteiro trazemos, pendurados em redor do pescoço, se não mesmo dentro do peito. é preciso um momento a sós e olhá-los nos olhos, um momento talvez para nos protegermos dos afectos. é verdade que tenho medo ainda de um certo canto escuro que tudo sabe de mim, e que esse canto está povoado de espectros. se aí hiberno, é porque as noites longas me obrigam.
nunca esquecemos é que existe, apesar de tudo, sol e livros bastantes para que o inverno seja um instante, mesmo com todas as suas ruas sombrias, seus dias desolados. vai-se construindo a memória do que está para vir numa cura por antecipação: sobrevive-se da simples promessa da pele que o tempo designa. é como disse uma vez, aquecermo-nos na simples ideia do calor.

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domingo, 14 de junho de 2009



The Bell Jar


o nosso cérebro até é uma máquina bastante eficiente, no seu instinto de preservação da máquina global humana de que faz parte. li A Campânula de Vidro de Sylvia Plath há precisamente 6 anos, sem que me tivesse ficado na memória uma linha, uma impressão que fosse. tratava-se de um vazio total, uma ausência descarada que desmentia a certeza de uma leitura que, apesar de tudo, eu sabia ter sido apaixonada. mas que fazer então deste incompreensível reset, sem marcas de personagens, de nomes, de enredos, sequer de sensações? ora, fiz o que se impunha: reli. só mesmo para perceber que o meu cérebro, ao proceder de imediato a um majestoso apagão, jogava a meu favor: protegia-me de mim mesma. ao reencontrar Esther e o seu definhamento lento e progressivo no interior da sua campânula de vidro, cada vez mais ausente do mundo e de si mesma, fui devolvida com um estalo a uma época longínqua, já distante, e fui forçada a revisitar um lugar em mim que julgava já esquecido: um túnel terrível onde uma pessoa se pode perder vezes sem conta, aquele velho canto escuro que tudo sabia.

hoje sei-o, A Campânula de Vidro é o livro mais terrível da minha vida, demoníaco, assombrado, perverso pela subtileza com que vai, muito lentamente, sugando o ar à minha volta sem que o perceba, até me fazer acordar a meio da noite incapaz de respirar. é claro que o cérebro é maleável, deixa-se enganar e manipular só até certo ponto; a velha máquina eficiente volta a tomar as rédeas da situação e assume a reafirmação da memória como aprendizagem: esta é a tua rua de sentido proibido, na qual não voltarás a prevaricar. a enfermidade é sempre tentadora, mas a aprendizagem da respiração é um exercício de resistência.

a ironia disto tudo reside nas partidas que o pobre cérebro prega a si próprio. o mergulho no esquecimento, tão útil na superação daquilo que dói, estende uma perigosa armadilha, e o afincado impulso de auto-protecção acaba por encontrar-se na origem das mais constrangedoras contradições: é que a memória sempre impulsiona os mecanismos de prevenção de reincidências. senão vejamos o exemplo da personagem de Kirsten Dunst no Eternal Sunshine of The Spotless Mind, a reviver uma e outra vez a mesma história dolorosa, justamente aquela que tinha preferido apagar do seu cérebro, mas que pela ausência de um luto, de um marco na memória, a deixa vulnerável às recaídas, e ao regresso aos mesmos lugares errados de um passado ainda recente.





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posted by saturnine | 01:24 | 3 Comentários


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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008



declaração de fim de ano


os balanços de fim de ano constrangem-me e perturbam-me especialmente porque

a) eu já passo o ano todo em balanços - em desequilíbrio constante, cai-não-cai, oscila para aqui, tomba para ali, sempre em busca de um equilíbrio precário, qual Humpty Dumpty em cima do muro;

b) não percebo honestamente como é que alguém se consegue lembrar das coisas todas de um ano inteiro para depois dizer categoricamente ora então estas foram assim as melhores e as piores, por ordem directa descendente. (já para não dizer que me recuso terminantemente a comentar essa coisa de que ouço falar, diz que há gente que tem tudo organizado em listas de Excel, a vida toda arrumada em gavetas perfeitamente organizadas e localizáveis.)


ainda assim, vou agora mesmo demorar-me num balanço de fim de ano. é que o olhar para trás é inevitável. um ano é um ciclo, e como sempre, cada ciclo é como um círculo, que se quer fechado. olha-se para trás em busca das pontas soltas. onde estive e o que fiz para chegar até aqui? (mais) 12 meses pesam em cima do corpo. não pretendendo deter-me em longas enunciações/enumerações, este foi por excelência o ano da Ana Teresa Pereira e da Iris Murdoch (o que acrescenta mais uma à minha lista de vocações inúteis, que não garantem sustento).

de resto, vejamos: o ano passado, foi um encolhimento só. houve Odawas, houve The National, houve Richard Haley, tudo o que era frio e nocturno tomou conta de tudo o resto. passei um ano nos subterrâneos. o que 2008 me trouxe de bom foi a trégua do verão: Vampire Weekend e Fleet Foxes, duas pérolas maravilhosas que efectivamente salvaram a minha vida ao puxar-me para o sol. não é assim com tanta frequência que qualquer coisa me soa francamente nova e surpreendente e apaixonante. et voilà!, de uma vez só o inesperado em duplicado.

é claro que não posso esquecer que 2008 foi também o ano de Scout Niblett [This Fool Can Die], que quase poderia desmanchar o meu sossego e atirar-me de volta para junto daquele canto escuro que tudo sabe e me olha sempre, permanentemente vigilante, não fosse eu saber já que há canções que matam mas também há canções salva-vidas, e por vezes a mesma de que morremos nos traz depois a cura. não fosse eu saber que onde há muito amor há também muito medo, mas não deixa de haver muito amor, e que neste diálogo entre a Scout Niblett e o Bonnie "Prince" Billy


If I'm to be the fool
Then so it be
This fool can die now
With a heart that's soaked

(...)

My heart is charged now
Oh, it's dancing in my chest
And I fly when I walk now
From the spell in that kiss


Kiss




há sobretudo o sobressalto da alegria inesperada. uma canção é um veneno tanto quanto é um amuleto. à chegada do outono, um disco que era noite cerrada, fez-se subitamente claro, com a primeira luz da manhã. um corpo olhando outro corpo, recitando mentalmente cada passo necessário para desenhar uma boca no rosto do outro, secretamente dizendo


What a way to start a fire
Broken with the break of day


Kiss






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posted by saturnine | 23:27 | 1 Comentários


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domingo, 22 de junho de 2008



The moment history is made #3


a máquina do amor sagrado e profano ou como se passa de um aborrecimento total a uma queda de joelhos, dorida, penitenciosa, apaixonada: já tinha previsto que se morresse de amores, a "My body is a cage" seria o ponto de entrada do veneno. todo o enamoramento implica uma tomada de surpresa, uma queda inesperada - de certa forma só se cai se nos falha de súbito o chão, ora portanto se somos apanhados à traição - razão pela qual não há enamoramentos (só execuções) com data marcada. o destino é certo, mas imprevisto. de nada me adiantou a certeza de que o enamoramento viria: era preciso uma epifania. porque sou dada a experiências religiosas através da música. todas elas seguramente profanas e danadas, mas não por isso menos elevadas. uma destas noites, sozinha no quarto onde aquele velho canto escuro que tudo sabe me olhava, em acutilante silêncio, precisei de um fôlego, uma tentativa de sorver o ar à superfície, asfixiada que estava por um beijo que quase me matou . seguindo a tipologia do animal ferido, mantive-me imóvel, de peito escangalhado, o máximo de tempo possível. o que doía, doía muito. dei por mim a pensar: my body is a cage. então arrisquei: hoje é uma noite incendiária, o coração estará preparado para Arcade Fire. já estava lá tudo antes, eu é que não havia chegado. a máquina pôs-se em funcionamento para que eu visse. agora, em cada canção, uma epopeia.






Arcade Fire | Black Mirror









Iris Murdoch
Scout Niblett





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posted by saturnine | 15:12 | 1 Comentários


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domingo, 21 de outubro de 2007



O ponto de vista dos demónios #27


aquele velho canto escuro
que tudo sabe tudo vê
espreita
a amálgama nervosa de um peito
dorido habitáculo
de uma flor nocturna

o seu olho agudo
conhece
o lugar exacto do medo
_e o peito desaba
a partir do centro_

a esponja vermelha da espera
suga devora engole
o corpo inteiro
a partir do esterno.






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posted by saturnine | 05:24 | 7 Comentários


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quarta-feira, 26 de setembro de 2007



The expected unexpected has come #2


há uma voz que chama, como dois braços estendidos naquele canto escuro que tudo sabe - e quando chama, eu vou. esperei todo o dia. poderias ter vindo. mas nem o sono vem. ainda estou nessa noite parada em frente ao Tejo a comover-me pela primeira vez. não sabia ainda que tanto e tão cedo se morre * nesta vida.



©2007 ~schnin


Jeff Buckley | Lover you should've come over


Looking out the door i see the rain fall upon the funeral mourners
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe i'm too young to keep good love from going wrong
But tonight you're on my mind so you never know

When i'm broken down and hungry for your love with no way to feed it
Where are you tonight, child you know how much i need it
Too young to hold on and too old to just break free and run

Sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that really, he has no-one

So i'll wait for you... and i'll burn
Will I ever see your sweet return
Oh will I ever learn

Oh lover, you should've come over
'Cause it's not too late

Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that will never come

It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever

Well maybe i'm just too young
To keep good love from going wrong

Oh... lover, you should've come over
'Cause it's not too late

Well I feel too young to hold on
And i'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love well i'm waiting for you

Lover, you should've come over
'Cause it's not too late






* d'après Al Berto





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posted by saturnine | 00:57 | 6 Comentários


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quinta-feira, 20 de setembro de 2007



Isto anda tudo ligado


o sentido que faz falar em funções corporais, na voz de uma tal woman who could not live with her faulty heart, é o de nos colocarmos, inequívocos, perante a pergunta:


(...)
se o corpo por si
falha e dói
para que queremos ainda
a invenção do amor?

.




representa, acima de tudo, a possibilidade de nos defrontarmos, vezes e vezes sem conta, com um certo canto escuro que nos olha e tudo sabe, e que interrompe ocasionalmente o seu sono para nos chamar, como dois braços esticados na escuridão. poucas coisas confrangem tanto como a evidência de um corpo que falha, adoece e dói.





Oh, just want to push somebody
Your body won't let you
Just want to move somebody
Body won't let you
You want to feel somebody
Body won't let you
Who, who, who do you talk to?
Who do you talk to?
Who do you talk to?
When your body's in trouble
The body's in trouble
The body's in trouble
When your body's in trouble, who?

Oh, you just want to run somebody
And a body won't let you
You want to let somebody
And a body won't let you
You just want to kiss somebody
You want to feel somebody
And a body won't let you
Oh who, oh who, who do you talk to?
Who do you talk to?
Who, who do you talk to?
Oh, who do you talk to?
When a body's in trouble
Oh, the body's in trouble
Who who who do you talk to?
Oh who oh who oh who
who, who

Oh you just want to take somebody
Your body won't let you
You just want to, want to hear somebody
And a body won't let you
You just want to ride somebody
Oh a body won't let you
Who do you talk who, who do you talk to?
Who do you talk to? Who?
When a body's in trouble, a body's in trouble
When a body's in trouble, in trouble, in trouble
When a body's in a trouble
Oh, when a body's in trouble
Who who who do you talk to?
Oh who oh who oh


Mary Margaret O'Hara | Body's in trouble




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quinta-feira, 13 de setembro de 2007



The woman who could not live with her faulty heart




ao longo dos anos em que tenho escrito, há meia dúzia de imagens e temas recorrentes:


# a memória fictícia de uma casa branca ao pé do mar (pedra solar)
# o meu demónio de estimação, o minotauro triste
# o canto escuro, que tudo sabe
# a intacta ferida/a ferida aberta
# a desolação magnífica, a vastidão por dentro, o vazio bonito: o deserto.
# os subterrâneos: a noite, o outono, a morte
# o buraco no peito


tenho a cabeça povoada (assombrada?) de personagens, lugares, histórias por escrever. na maioria das vezes, não sei o que lhes fazer. temo um dia a falha da memória. como sempre me angustia o destino incerto das promessas que ficam por cumprir.





The woman who could not live with her faulty heart ---> Margaret Atwood



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adenda: o buraco no peito. Candy, Candy Candy, I can't let you go.





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sábado, 28 de abril de 2007



Hemoglobina


o mal maior, esse instransponível, é verificar que onde a respiração é difícil não é no lugar que se habita, mas no próprio corpo - e não há outro corpo para onde escapar. descansar, apenas. deixa-me só repousar aqui um bocadinho no teu tórax e já sigo o meu caminho. é frágil a matéria viva, sangra desalmadamente como um dedo cortado. 'os outros' é toda uma massa anónima distante que não reconheço. a familiaridade cortada à faca como nacos de carne, arrancada ao quotidiano pelos hábitos da misantropia. é-se tão fingida mas genuinamente feliz nas palavras. muitos vivas para a literatura. mas ninguém está presente naquele canto escuro, que tudo sabe, onde há fome e dívidas e memórias quebradiças de pessoas que seguem para longe e explodem - olha, como o Al Berto - como dois astros de éter.


Patrick Wolf | Bloodbeat



I wake at dusk to go alone
without a light
to the unknown
i want this night inside of me
i want to feel
i want this speeding
i want that speeding

my blood beats black tonight!

no need for comfort
no need for light
i am hunting for secrets tonight
Eat the sorrow lick the spark
uh oh my blood beats dark

And here it comes
it comes for me
i want to run
i want to scream
Get in my car with both eyes closed
full pedal down
And i am speeding!

my blood beats black tonight!

no need for comfort
no need for light
i am hunting down demons tonight
Eat the terror lick the spark
uh oh my blood beats dark




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segunda-feira, 9 de abril de 2007



O ponto de vista dos demónios #24


regressar aos velhos lugares, sentir o conforto de um canto escuro, antigo, que nos olha e sabe tudo de nós. uma voz lenta e grave, com uma inflexão inconfundível: é a isto que soam os lugares familiares, o mais familiar dos lugares - a casa. ter um corpo do qual não se sabe o que fazer, desencaixado do mundo como um naco de carne arrancado à dentada à aspreza dos dias - ainda assim habitar um lugar onde qualquer coisa se reconhece.




Bonnie "Prince" Billy | Cursed Sleep




invadir demasiado o território da noite, porque a respiração é frágil e o sono difícil. deitar sobre o chão, contemplar o tecto parado em vez das estrelas, mastigar o silêncio retumbante. o quarto é um templo, povoado de pequenas mortes. não dormir, não dormir nunca o que se deve, entrar com toda a força numa noite algo escura porque não há conforto na luz. atirar pedras polidas ao charco do teu silêncio, tu que não voltas nunca, não morres nunca, e eu que jamais amarei senhor que possa morrer.














Bonnie "Prince" Billy | Theatro Circo | Braga





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domingo, 6 de agosto de 2006




no início era diferente


eram poucas as vozes a sustentar a noite. encontrávamo-nos porque, no meio do silêncio, ouvíamos o som dos nossos passos. falávamos dos blogs como casas, lugares recortados de sol, não se percebia que forma de existência era esta. por entre as palavras, silenciosamente, descobria-se a natureza dos abraços.
agora escrevo pouco e leio praticamente nada. aí uma vez por ano bate-me a saudade absurda dos amigos demasiado distantes, apenas porque a distância é uma comodidade, e porque o coração se encosta sempre ao lado onde a respiração é mais fácil. a falta, quando se avoluma, é um empecilho à citação. por isso me abstenho de nomes, listas, resigno-me à esperança de que cada um saiba que falo para si. vou largando breves acenos, como Agnès de Kundera. recordo-me de um canto escuro que tudo sabia, que o Hugo (ford mustang) também conhecia, e da Sofia (natureza do mal) que sofria de um mal de espanto. e de Ossanha, traidor, que me desapareceu da vista para sempre.



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segunda-feira, 1 de novembro de 2004




it's not going to stop
(so just give up)


choveu primorosamente toda a semana. o vendaval é um dos sinónimos do medo. mas porque entramos no mês do escorpião, há de novo o sol. a minha rua encheu-se de folhas vermelhas. a cada sete dias o meu corpo regressa às cinzas. todos temos uma voz subterrânea. vivo agora de malas feitas e de coração nas mãos, não vá precipitar-se o dia de partir. já sinto o incómodo das mãos frias e o tempo volta a assegurar-me a primazia da desordem. uma parte de mim ama o caos. uma parte de mim é uma pessoa melhor do que ontem. já quase esqueci o teu rosto, só em sonhos me assombras. dizes-me da falta que, no fundo, não sentes. entrámos no reino da noite longa, e eu faço-lhe reverência no interior da casa - onde há um canto escuro, como se sabe, que tudo sabe. a música acabou, todos os sons estão infestados de demónios. Aimee Mann sobrevive. afinal, todos temos uma ferida que nunca há-de sarar. há muito mais coisas na vida do que o simples quotidiano dos afectos. só alguns filmes revelam a sua substância mais íntima. vivo desses pequenos nadas. agora que compreendo o abismo silencioso do arvoredo, estou mais próxima das coisas que doem, e mais próxima das coisas que vivem. o monólito é o outro sinónimo do medo. nas profundezas, há coisas maravilhosas e desconhecidas. por isso avançamos pela polpa negra das horas tardias. o que resta da música sustem-me. acabaram-se demasiado depressa os girassóis, as tardes quentes e os teus abraços. pela primeira vez, sou feliz à chegada do outono. mas pela primeira vez, a terra apanha-me a tempo. ainda que afeita ao avesso das coisas. há coisas sobre as quais não falamos. há magia por todo o lado, como nas histórias de crianças: há sempre aquele cujo nome não pronunciamos. coisas desfeitas, memórias desagregadas. face ao drama dos equívocos, mais vale voltarmo-nos para o firmamento, para o assombro da mais inexorável incompreensão. mas tu, não te enganes: nem todos os fantasmas têm o teu nome. há demasiadas coisas que as palavras não alcançam.


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sexta-feira, 23 de julho de 2004




:: the downward spiral ::

abeiro-me do perigoso limiar do silencioso assalto das imagens. subitamente, sou eu deitada nesse canto escuro que tudo sabe, riscando pequenas frases no chão, como se o tempo tivesse passado e ainda a memória me confrangesse o coração.

posted by saturnine | 00:09 | 0 Comentários


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quinta-feira, 15 de julho de 2004




Hello darkness, my old friend,
I've come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.
*


sou eu que entro na noite a correr, ou é outra vez esse canto escuro que tudo sabe que estende o seu longo braço negro e me alcança aqui, frágil, mesmo onde o dia ainda perdura? o pouco que entendo disto é que seja talvez este o meu lugar, a que sempre volto irremediavelmente, onde não há matéria possível para o amor, se afinal de contas há tanto tempo pus a vida no prego, e a noite sempre a reclama mais cedo ou mais tarde. aqui estou de volta ao inferno de minha criação, eu que não soube como fugir ao desamor, que não soube como não fazer da escuridão um lugar triste. estalam por dentro as feridas antigas. toda eu carne viva. repito-me. encolho-me. torno-me de novo minúscula. perderei existência. já há muito o sabia. sempre soube que envelheceria cedo, como Duras. que um dia olharia o meu rosto no espelho e não mais saberia de mim.

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terça-feira, 13 de julho de 2004




:: já não sei escrever sobre a dor ::

o momento chega em que já nem as epifanias nos bastam, porque não as há, onde as palavras já gastaram tudo, e se exauriram da substância das importantes revelações. que há para concluir aqui, onde já tudo é sabido? que surpresa existirá em abrir a mesma porta do mesmo quarto fechado onde o mesmo canto escuro me olha e de mim tudo sabe, sabendo que eu sei? é verdade que já não me espantam os corredores estreitos povoados de espectros, é verdade que não há medo em mim, é verdade que entro a correr na noite escura. tudo me é familiar. não é por acaso, é porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos / e reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor *. reconheço a fibra deste lugar, e nele nada me horroriza. tornei-me nisto, habitante íntima deste inferno. não posso escrever sobre a dor porque não há nada que ela tenha para me revelar. é isto que sou, em redor de mim todas as coisas que conheço, o mesmo braço de ferro com os demónios amestrados, sem poesia alguma, não há redenção, só há o tempo passado que sempre é melhor que a ferida aberta, so let's just get it over with. se agora insisto nas palavras, é para as gastar inutilmente, à espera que o tempo passe. porque é só esse o meu ofício. esperar que o tempo passe, vasculhando os escombros.

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segunda-feira, 22 de março de 2004



:: das mulheres, do despeito e da música :


isto veio tudo a propósito de uma já antiga conversa. a Ana deu o mote num parágrafo sobre esta música. chamemos-lhe a crème de la crème das letras bonitas e violentas de gajas despeitadas (expressão forte, esta). havia que prosseguir com o tema, lembrei-me eu de três exemplos em catadupa. façamos um parêntesis ao jazz, por enquanto:




You got your game, made your shot
And you got away
With a lot, but I'm not turned-on
So put away that meat you're selling

'Cause I do know what's good for me
And I've done what I could for you
But you're not benefiting, and yet I'm sitting
Singing again, sing, sing again

How can I deal with this, if he won't get with this
Am I gonna heal from this, he won't admit to it
Nothing to figure out, I got to get him out
It's time the truth was out that he don't give a shit about me

Fiona Apple | Get Gone






And it's your heart,
That's so wrong,
Mistaken,
You'll never know,
Your feathered sacred self.

But you can't deny how I feel,
And you can't decide for me.

Postishead | Elysium






You think you're denying me of something
Well I've got plenty
You're the one who's missing out
But you won't notice
'Til after five years
If you'll live that long
You'll wake up
All loveless

I dare you
To take me on

Björk | 5 years



.....................................................

também estas vozes se levantam, aqui e ali, como se emersas de um canto escuro da noite, ora próximas da ferida, do peito que dói, ora próximas do bálsamo que sossega o ardor, da mão invisível que nos conduz à claridade do dia. aparecem e assombram e depois não se pode fazer mais nada durante toda a noite, durante noites a fio, senão permanecer no silêncio e aguardar que recomecem o seu encanto.





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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004




:: pela ausência de varandas voltadas ao mar ::


é tarde. e eu tenho medo destas horas nocturnas, juro que tenho. adio o mais possível o sono, até que me vença sem restrições, para que sucumba onde não tenha lugar para o pensamento. tenho medo do pensamento nocutrno. sou eu não sendo eu. mesmo agora, o que escrevo não sou eu. é o canto escuro que tudo sabe a olhar a para mim. é estar na margem do abismo de mim mesma, onde tudo me precipita para o que não devo, o que não posso. tenho uma existência insuficiente para tanto aperto. sob o sol, conheço o sossego. no silêncio azul-negro da noite, enche-se-me o quarto de incertezas que ardem como sal na ferida. espero o dia. movo-me e resisto. sou só eu contra os infernos de minha própria criação. algum sossego há-de chegar com a manhã. talvez ame o deserto pela vontade de me impregnar de sol excessivo que dure e baste e para estas travessias. forço-me aos corredores da insónia, que não me aceitam, que me castigam depois com o cansaço durante o dia. é tarde e algo em mim tilinta e estremece. é um lugar estranho, a noite.

Minha pedra de peito
onde mordo onde morro
onde estás morto
movo-te.

[P.]




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spot player special




"us people are just poems"
[ani difranco]


*

calamity.spot[at]gmail.com



~*. through the looking glass .*~




little black spot | portfolio
Baucis & Philemon | tea for two
os dias do minotauro | against demons
menina tangerina | citrus reticulata deliciosa
the woman who could not live with her faulty heart | work in progress
pale blue dot | sala de exposições
o rosto de deus | fairy tales








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~*. rearview mirror .*~


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~*. spying glass .*~


a balada do café triste . ágrafo . albergue dos danados . almanaque de ironias menores . a natureza do mal . animais domésticos . antologia do esquecimento . arquivo fantasma . a rute é estranha . as aranhas . as formigas . as pequenas estruturas do ócio . atelier de domesticação de demónios . atum bisnaga . auto-retrato . avatares de um desejo . baggio geodésico . bananafish . bibliotecário de Babel . bloodbeats . caixa-de-lata . casa de cacela . chafarica iconoclasta . coisa ruim . com a luz acesa . comboio de fantasmas . complicadíssima teia . corpo em excesso de velocidade . daily make-up . detective cantor . dias com árvores . dias felizes . e deus criou a mulher . e.g., i.e. . ein moment bitte . em busca da límpida medida . em escuta . estado civil . glooka . i kant, kant you? . imitation of life . isto é o que hoje é . last breath . livros são papéis pintados com tinta . loose lips sink ships . manuel falcão malzbender . mastiga e deita fora . meditação na pastelaria . menina limão . moro aqui . mundo imaginado . não tenho vida para isto . no meu vaso . no vazio da onda . o amor é um cão do inferno . o leitor sem qualidades . o assobio das árvores . paperback cell . pátio alfacinha . o polvo . o regabofe . o rosto de deus . o silêncio dos livros . os cavaleiros camponeses no ano mil no lago de paladru . os amigos de alex . Paris vs. New York . passeio alegre . pathos na polis . postcard blues . post secret . provas de contacto . respirar o mesmo ar . senhor palomar . she hangs brightly . some variations . tarte de rabanete . tempo dual . there is only 1 alice . tratado de metatísica . triciclo feliz . uma por rolo . um blog sobre kleist . vazio bonito . viajador


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~*. the bell jar .*~



os lugares comuns: against demons . all work and no play . compêndio de vocações inúteis  .  current mood . filosofia e metafísica quotidiana . fruta esquisita menina aflita . inventário crescente de palavras mais-que-perfeitas . miles to go before I sleep . música no coração  .  música para o dia de hoje . o ponto de vista dos demónios . planos para dominar o mundo . this magic moment  .  you came on like a punch in the heart . you must believe in spring


egosfera: a infância . a minha vida dava um post . afirmações identitárias . a troubled cure for a troubled mind . april was the cruellest month . aquele canto escuro que tudo sabe . as coisas que me passam pela cabeça . fruto saturnino (conhecimento do inferno) . gotham style . mafarricar por aí . Mafia . morto amado nunca mais pára de morrer . o exílio e o reino . os diálogos imaginários . os infernos almofadados . RE: de mail . sina de mulher de bandido . the woman who could not live with her faulty heart . um lugar onde pousar a cabeça   .  correio sentimental


scriptorium: (des)considerações sobre arte . a noite . and death shall have no dominion . angularidades . bicho escala-estantes . do frio . do medo . escrever . exercícios . exercícios de anatomia . exercícios de respiração . exercícios de sobrevivência . Ítaca . lunário . mediterrânica . minimal . parágrafos mínimos . poemas . poemas mínimos . substâncias . teses, tratados e outras elocubrações quase científicas  .  um rumor no arvoredo


grandes amores: a thing of beauty is a joy forever . grandes amores . abraços . Afta . árvores . cat powa . colectânea de explicações avulsas da língua portuguesa  .  declaração de amor a um objecto . declaração de amor a uma cidade . desolação magnífica . divas e heróis . down the rabbit hole . drogas duras . drogas leves . esqueletos no armário . filmes . fotografia . geometrias . heart of darkness . ilustraçãoinício . matéria solar . mitologias . o mar . os livros . pintura . poesia . sol nascente . space is the place . the creatures inside my head . Twin Peaks . us people are just poems . verão  .  you're the night, Lilah


do quotidiano: achados imperdíveis . acidentes quotidianos e outros desastres . blogspotting . carpe diem . celebrações . declarações de emergência . diz que é uma espécie de portfolio . férias  .  greves, renúncias e outras rebeliões . isto anda tudo ligado . livro de reclamações . moleskine de viagem . níveis mínimos de suporte de vida . o existencialismo é um humanismo . só estão bem a fazer pouco


nomes: Aimee Mann . Al Berto . Albert Camus . Ana Teresa Pereira  . Bauhaus . Bismarck . Björk . Bond, James Bond . Camille Claudel . Carlos de Oliveira . Corto Maltese . Edvard Munch . Enki Bilal . Fight Club . Fiona Apple . Garfield . Giacometti . Indiana Jones . Jeff Buckley  .  Kavafis . Klimt . Kurt Halsey . Louise Bourgeois . Malcolm Lowry . Manuel de Freitas . Margaret Atwood . Marguerite Duras . Max Payne . Mia Couto . Monty Python . Nick Drake . Patrick Wolf  .  Sophia de Mello Breyner Andresen . Sylvia Plath . Tarantino . The National . Tim Burton


os outros: a natureza do mal . amigos . dedicatórias . em busca da límpida medida . retalhos e recortes



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...it's full of stars...


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