quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008



O ponto de vista dos demónios #edição especial


agora párem. sentem-se, ouçam e leiam. em simultâneo.


«If... if by any chance you would make the mistake to try to come in and take any one of us... we will not let you, you will die, you will have to take anybody over all of our dead bodies.

*

Love is the only weapon, shit! Bullshit! Martin Luther King died with love! Kennedy died talking about something he couldn't even understand, some kind of generalized love, and he never even backed it up... He was shot down! Bullshit! Love is the only weapon with which I've got to fight... I've got a hell of a lot of weapons to fight! I got my claws, I got cutlasses, I got guns, I got dynamite, I got a hell of a lot to fight! I'll fight! I'll fight! I will fight!»




e agora já temos um rosto



Jim Jones, directamente de Freaktown, os demónios acordados e acossados, indomáveis, antevisão de um espectáculo macabro de loucura e morte massificada.






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posted by saturnine | 19:22 | 3 Comentários


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segundo exercício de anatomoescatologia


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tenho afinal
três grandes desgostos
mas não tenho
três ventrículos
que os esgotem

para tudo o que falha e dói
não basta um só coração.






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posted by saturnine | 01:07 | 4 Comentários


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lunar caustic


a tristeza tem qualquer coisa de lunar caustic - que é nitrato de prata e mancha a pele de negro. à volta dos olhos, a minha pele escurece e afunda-se, enquanto eu empalideço em olheiras vivas, palpitantes. eu desapareço dentro dessas olheiras onde a tristeza cartografa os seus lugares. de tudo o que perder, hão-de ser os olhos os primeiros a apodrecer. porque os olhos carregam a culpa de tudo o que choram e de tudo o que não choram. é como dizer: eu não aguento a desordem estuporada da vida. é como dizer: eu não aguento este buraco crescente, flor nocturna que desabrocha, mastiga, rói, que me consome toda a caverna do peito a partir do centro-esquerdo.





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posted by saturnine | 01:01 | 0 Comentários


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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008



inventário crescente de palavras mais-que-perfeitas


# glockenspiel

# doppelganger

# mafarrico

# defenestração





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posted by saturnine | 23:25 | 6 Comentários


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domingo, 24 de fevereiro de 2008



I'll smoke you later


Richard Hawley foi uma descoberta tardia, durante o ano passado. um arrasador amor assolapado à primeira audição. o que eu gosto no desconhecido é o paradoxo do reconhecimento imediato, anterior ainda ao conhecimento. um hábito, uma aptidão para o reconhecimento de uma tristeza familiar, antiga, primordial, que não se conhece senão de nascença, e se aprende a nomear quando se compreende o significado íntimo dos desertos que nos habitam por dentro:

porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
e conhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor


Sophia de Mello Breyner

não é preciso mais nada, nenhum sentido para a falta de sentido do mundo, quando há uma voz como a do Richard Hawley, que nos envolve como se longos braços nos alcançassem peito adentro. dói-me esta mão que manténs através das minhas costelas. mas não a removas, mantém a tua mão afogada na minha caixa toráxica e contém assim o sangramento. tudo se resume a isto: se há Richard Hawley numa sala, e eu não consigo perceber mais nada, eu suporto por instantes a desordem estuporada da vida.

no fim, eu queria ter ouvido "Baby, you're my light". disse-lhe que ele era a minha luz e ele fez-se desentendido, nomeou-me cigarro, e disse que me fumava depois.





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posted by saturnine | 21:31 | 2 Comentários


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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008



exercício de anatomoescatologia


tenho dois grandes desgostos
felizmente cabem
em dois grandes esgotos
um esquerdo outro direito
nos dois ventrículos
um para cada metade do coração






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posted by saturnine | 19:56 | 4 Comentários


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o que é que eu ando a fazer da minha vida


agora que quase não vejo televisão, quase não tenho acesso à net, quase não tenho tempo para ir ao cinema nem para fotografar nem para seja o que for, além de trocar as pessoas pelos livros:


23 de Fevereiro de 2008: Richard Hawley, Festival para Gente Sentada

26 de Março de 2008: Portishead, Coliseu do Porto

22 de Abril de 2008: Nick Cave, Coliseu do Porto

11 de Maio de 2008: The National, Aula Magna

28 de Maio de 2008: Cat Power, Coliseu do Porto



e ando, naturalmente, a perder dinheiro a olhos vistos. enquanto o diabo esfrega um olho, estou na miséria. mas feliz. embora a próxima prestação do seguro do carro seja garantia de infelicidade iminente. o que é preciso é que o coração aguente. por ora, vou só ali perder-me de amores pelo Richard Hawley, entre gente sentada.





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posted by saturnine | 19:50 | 0 Comentários


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às voltas com os passos em volta


«Se eu quisesse enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar isso tudo.Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a nossa vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo. Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida



Herberto Helder | Estilo in Os Passos em Volta



aqui, neste lugar impossível, ainda tento saber quem é esse homem Max Hughes, ainda procuro saber como se vai para Singapura. algo me diz que parta como se fosse em busca de Mr. Kurtz. que a resposta soaria a qualquer coisa como "the horror... the horror...".





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posted by saturnine | 19:45 | 3 Comentários


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love is the only weapon... - shit! - bulshit!


de tanto passar o tempo no meio dos livros, um bicho escala-estantes começa a parecer-se com eles. de coloração pálida, adquire a consistência frágil das folhas. de dedos em ferida, adquire a silenciosa irreparável fúria das palavras. amarga como uma azeda, transforma-se a criatura em mulher comestível. um bracito aqui, um joelho acolá, a mulher comestível vinga-se do mundo à dentada. qual animal acossado, qual árvore cujas entranhas foram devoradas pelos bichos. dentro do seu corpo oco não se conhece a arma do amor, só uma tão irreprimível inexprimível irreparável honesta fúria.






uma explosão, uma torrente, a montanha de Sísifo inteira a derrocar dentro da caverna do peito. uma tão irreprimível inexprimível irreparável honesta fúria que um peito magoado não pode conter. os livros sustentam mas não salvam. nem Sá de Miranda conseguiu responder: que farei quando tudo arde?





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posted by saturnine | 19:25 | 0 Comentários


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sábado, 16 de fevereiro de 2008



post-scriptum


um dia eu acabo.






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posted by saturnine | 19:23 | 9 Comentários


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de uma enfermidade mortífera


um pequeno ponto preto em processo de desaparecimento contínuo.

o que eu queria era uma fímbria de resolução para o meu coração arruinado. não há mãos que bastem para aplacar uma tão honesta fúria.




Um dia hei-de pensar no teu rosto
Com um dedo que feche pálpebras
E direi
Extinguiu-se a minha adoração
E nunca mais procurarei
Os vestígios dos teus passos no mundo.


Luís Falcão






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posted by saturnine | 19:04 | 5 Comentários


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Dos subterrâneos #2


li "A Morte de Ivan Ilitch" do Tolstoi impulsionada pelo fervor das leituras de terceiros, expectante por causa do anúncio pouco modesto na contracapa que o apontava como um dos mais perfeitos romances da história da literatura. não me teria sido difícil acreditar, os russos avançam pela porcaria do espírito humano adentro como ninguém. no final, resta-me a impressão de um livro brilhante, mas não perfeito. correndo o risco de parafrasear um certo e determinado gag publicitário, perfeito perfeito é mesmo os "Cadernos do Subterrêno" do Dostoievski. incomodativo, perturbador, inquietante, esse sim profundamente existencialista. e acreditem, o tio Dosti sabia das pessoas:


«Sou um homem doente... Sou um homem mau. Um homem repulsivo, é isso que eu sou. Acho que tenho alguma coisa no fígado. De qualquer modo, não entendo que raio de doença é a minha, não sei ao certo o que me faz sofrer.»





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posted by saturnine | 18:01 | 1 Comentários


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The Demon Barber of Fleet Street




fui ver o Sweeney Todd noite adentro, num ímpeto. saí de lá com algumas coisas para dizer. as mais importantes, disse-as sem palavras na manhã seguinte: fui trabalhar vestida de preto e branco, com os olhos pintados com sombras negras. com alguma pena admito que não foi o filme perfeito que esperava que fosse. um pouco de terror a menos e alguma previsibilidade a mais confrangeram-me o coração. apesar de alguns momentos musicais brilhantes (there's a hole in the world like a great black pit/ and it's filled with people who are filled with shit/ and the vermin of the world inhabit it! - ou - because the lives of the wicked should be made brief/ for the rest of us death will be a relief/ we all deserve to die.), sem o Danny Elfman a coisa soube-me a pouco. não é fácil a herança de Nightmare Before Christmas.




ainda assim, num filme que não foi perfeito, reside a aura escarlate, sanguínea, de uma história terrível e perfeita; além do que o Johnny Depp é um actor absolutamente perfeito, a Helena Bonham-Carter é perfeita, as personagens são perfeitas, a cidade suja e sombria é perfeita, os sons, as pronúncias fechadas, as vozes, tudo perfeito, as imagens do barbeiro e da confeiteira nos seus sonhos pela praia são perfeitas e, caso ainda não o tenha mencionado, a boca do Johnny Depp também é perfeita. portanto, serve-me. estou outra vez a habitar dentro de um filme do Tim Burton. and you say 'psycho!' like it's a bad thing...







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posted by saturnine | 16:50 | 1 Comentários


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o destilar do veneno (ou um exercício de arrogância primordial)


o Homem é de facto o único grande mal da Humanidade. criatura que não presta. resumindo, as pessoas são más. brutas, selvagens como animais. estúpidas como bestas. bestas estúpidas. refugiam-se na breve ilusão de um dom de vertebralidade, mas que não se enganem: não há futuro para a alquimia, quando tudo o que tocam se transforma em merda, nunca em ouro.
o bicho escala-estantes vive atormentado entre as pessoas. deslocado, estrangeiro, desadaptado. a sua pele não é feita à medida da ignomínia. doem-lhe os dedos em ferida. sangram, porque os livros não perdoam os maus tratos. mudos e quedos, ruminam silenciosos uma vingança, e ripostam. tombam, mordem, agridem, arranham. debatem-se, furiosos, contra a destruição. em seu redor, a maldade geral das pessoas. o crime da ignorância. as pessoas, que destroem tudo em que tocam. movem-se como gigantescas implacáveis máquinas debulhadoras, avançando sem contemplações como se não houvesse amanhã num mundo que fosse como uma Zara em época de saldos.
ignoram a vida secreta dos livros e a profundeza das feridas da desconsideração. movem-se como forças defeituosas da natureza, cegas, imparáveis, deixando atrás de si cenários de guerra. os estilhaços cobrem as costas do bicho escala-estantes, cujo ofício é viver escavando no meio dos escombros. não há tempo para revisitar os velhos poemas, e os lugares encantados da literatura, o António Gancho e o seu ar da manhã, ou o Faulkner e do seu som e a fúria, por que ninguém pergunta. o bicho escala-estantes sente o coração insuflado porque conhece um qualquer livro especial numa estante em particular, sempre à espera que lhe perguntem por ele, porque dele saberá dizer "sim, ainda bem que me pergunta, porque ele tem estado aqui à espera que perguntem por ele". mas nunca ninguém pergunta.
as pessoas são animais brutos e feios. gostam do lixo bruto e feio à sua semelhança. o bicho escala-estantes sofre, atormentado, o insulto da estupidez. o crime da ignorância. nunca conheci um leitor amante de Nicholas Sparks que soubesse pronunciar correctamente o filha-da-puta do raio do nome do gajo. puta que os pariu. se não sabem ler, porque lêem? ah, imbecil ignorante vil criatura! recolhe a esse canto obscuro sob a pedra debaixo da qual saíste e não me aborreças. eu tenho estantes para escalar, mundos para conhecer, livros para cuidar, vidas inteiras para viver, ainda antes de o dia findar. não tenho mãos para ti, que te apertem o pescoço quando abres a boca para falar. oh, tivesse eu mãos que te suprimissem o fluxo verborreico, ou - porque não? - a própria respiração...! o meu coração ao pé da boca e os meus dedos em ferida anseiam pelo silêncio de um quarto com alguma luz, alguma música, e a companhia dos livros. dito em tempos, há um hábito de sanidade na misantropia.





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posted by saturnine | 02:24 | 3 Comentários


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domingo, 10 de fevereiro de 2008



a tentação da queda


a tentação da queda é do camandro. o fascínio da vertigem, do movimento abrupto da descida, do medo - sempre o medo - colossal anterior à queda. saber que um abismo muito olhado é um abismo que olha também para dentro de nós. com olhos redondos, silenciosos, recortados no escuro como dois braços que se estendem até nós como raízes. olhos como braços como raízes. num peito desprotegido, o degredo da terra. uma caverna, um subterrâneo. eu sou dos subterrâneos, sou dos abismos. não fui seduzida com uma romã: eu vim de livre vontade, como caída num lago de cuja imagem não consegui desfixar os olhos. e a cada passo, tropeço, hesito, assalta-me o desejo profundo de cair. há livros que nos sovam como gente, gente que nos sova como gente, uma tristeza primordial na predisposição para as coisas excessivamente comoventes. cai-se, levanta-se, sacode-se o pós das mãos, a terra das calças, prescruta-se o horizonte em redor na antecipação de um futuro: aqui estou, pronta para ser sovada. que me doam essas pedras que sangro, então, para que através delas se manifeste a vida dos meus braços.


depois de terminar A Estrada de Cormac MaCarthy, pensei que nunca mais iria ser capaz de ler livro nenhum. agora, eis-me perante o Vulcão de Malcolm Lowry, e sei-o: sobreviverei a custo na sua torrente de lava.





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posted by saturnine | 23:51 | 4 Comentários


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nunca é fácil viver de coração nas mãos, coração dividido, sempre a caminho de qualquer lugar, incerto se de partida, se de regresso. sempre de mala meia-feita, há que fazer futurologia; antecipar o frio e o quente, os impulsos noctívagos, os a(b)cessos de saudade; prever portanto a roupa que apetecerá vestir, o livro que afinal desejaremos ler, a música que subitamente nos chama do outro lado da noite e necessitamos ouvir. não é fácil, não se sendo caracol ou tartaruga. decidir que é urgente ter o Leonard Cohen por perto, mas hesitar; fica o "Various Positions", vai o "I'm your man", como quem divide os amores por estados, os afectos pelos lugares prováveis da emergência. depois, separar um livro da sua estante é doloroso como a ruptura de um cordão umbilical. como se um naco de carne arrancado ao seu corpo essencial manifestasse então uma ordem de incompletude e falta de sentido. eu conheço-me pelas minhas estantes. poderá agora quem me visite nas minhas meias-casas, conhecer-me de facto, adivinhando através dos buracos que elas apresentam? eu gosto das histórias contadas pelos velhos objectos, mesmo se tristes, enrugados, gastos pela passagem do tempo. hoje bate em mim um orgão negro desconhecido. o que eu faço - inesperadamente - é resgatar do móvel dos vinis a recordação de Don't Cry [Guns'n'Roses].





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posted by saturnine | 18:15 | 4 Comentários


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She's keeping busy, yeah she's bleeding stones #3


doem essas pedras, pretas, polidas, a aflorar a superfície da pele, onde outrora riscos azulados asseguravam o fluxo vivo de um líquido quente, vermelho. o bicho recolhe-se, evita a escalada. não há glória quando não há unhas. há apenas a queda e o esconderijo, o inesperado, o encontro súbito, não previsto, de Malcom Lowry e do seu Vulcão num livro longamente esperado do Carlos de Oliveira.



*


VIII


os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.


de Micropaisagem. Carlos de Oliveira, Trabalho Poético.






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posted by saturnine | 15:54 | 0 Comentários


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sábado, 9 de fevereiro de 2008



love is the only weapon with which I got to fight





ou como quem diz, uma quase novidade fresquíssima, um soco não esperado nos queixos, que faz partir dentes e cuspir sangue, uma mão insidiosa a desapertar subrepticiamente todos os ligamentos do sossego, ou como quem diz, umas breves notas ainda sobre o medo, o amor, um dom de tristeza absolutamente contemporâneo e urbano, isto de estar vivo habitando um corpo, sendo um outro. ou poderia também dizer ainda como o Jorge de Sena: "Nada nos salva desta porra triste."





A verdade, por muito que nos custe,
é que nunca houve ninguém
por detrás da janela
do ponto mais alto da montanha.

Se é que podemos falar
de montanha, da janela onde
por vezes chegavam
os sinos indolentes do amor,
na sua claríssima estranheza.

E as coisas que nos matam
incendeiam-se,
cansadas de esperar por outro dia.



*



A fome, o desamor, o desabrigo,
nenhum mal é comparável à miséria
dum emprego, com as horas escoltadas
por minutos, os minutos como lápis
afiados, rasurando dia a dia
o animoso galarim das faculdades.

A questão, uma vez mais, é recusar;
desde logo, a protecção dos que traficam
com a liberdade alheia, o conforto
de servir os mediáticos negreiros,
cuja sorte se cimenta no apelo
que dirigem ao pior de cada um.

Pois aquilo a que chamais liberdade
(a coleira do consumo para muitos,
para poucos a gestão do entreposto)
não é mais do que extorsão e propaganda,
centenária manobra de fidalgos
educados no prazer da injustiça.



*



A poesia, que foi, é quase nada,
se não cura, não faz pão, não tira nódoas
do tecido social. Em vez de versos,
ponho ao sol um vaso de ervas aromáticas,

fomento a couve-roxa, conto as flores
do manacá e atormento-me em janelas
virtuais, avaliando os elementos
da ruína, seus engodos e motivos.

Atormento-me de novo, com os roubos
do momento, disparato, não respiro,
assobio uma canção desencontrada,
popular, o coração impaciente.

E cedo volto, sem prazer, ao passatempo
destes jogos cranianos - escusados,
se não creio que a justiça leia versos
nem me abrigo na memória de vindouros.






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posted by saturnine | 18:20 | 5 Comentários


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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008



E ele perguntava: A noite, o que é?


a noite é um lugar assombrado. um pano de fundo, negro, despido, onde emergem espectros, sombras, fantasmas - vivos, acordados, despertos de um sono indolente, quotidiano, habitando de súbito a matéria fértil das horas improváveis. um desfile de vozes interiores, um coro demoníaco que traz novas dos lugares remotos dos subterrâneos, onde a carne ferve arde e dói. um encontro à hora marcada com os ritos habituais da insónia. percorro os corredores dessa noite como quem tacteia um caminho através do medo. (e o medo é um lugar onde existe o Al Berto.) há uma criatura triste, monstruosa, de olhos bem abertos no fundo do poço da escuridão. alhures, na distância, um vago som de correntes, uma pedra que rola, montanha acima, montanha abaixo.











Whose woods these are I think I know,
His house is in the village though.
He will not see me stopping here,
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer,
To stop without a farmhouse near,
Between the woods and frozen lake,
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake,
To ask if there is some mistake.
The only other sound's the sweep,
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.


Robert Frost





do your hear me, Butterfly? miles to go before you sleep.

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posted by saturnine | 03:24 | 4 Comentários


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domingo, 3 de fevereiro de 2008



no need for comfort, no need for light,


i'm hunting down demons tonight *



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se não houvesse Dostoievski, se não houvesse Kafka, se não houvesse Nietzsche, bem se poderia dizer que ninguém se lança sobre as profundezas do espírito humano como Camus. incontornáveis as linhas que respiram o pesado fardo de conhecer-se os homens:


«Como se o meu verdadeiro desejo não fosse de ser a pessoa mais inteligente ou mais generosa do mundo, mas apenas de bater em quem eu quisesse, de ser o mais forte, enfim, e da maneira mais elementar. A verdade é que todo o homem inteligente, como o senhor bem sabe, sonha em ser um gangster e em imperar sobre a sociedade unicamente pela violência. (...)
Eu descobria dentro de mim gratos sonhos de opressão.»


Albert Camus | A Queda



eis, por exemplo, o retrato perfeito de um homem, reconhecível, tangível, como se tivesse um rosto:


«Sempre achei a misoginia vulgar e estúpida, e quase todas as mulheres que conheci, julguei-as sempre melhores do que eu. No entanto, ao colocá-las tão alto utilizei-me delas mais vezes do que as servi. Como perceber isto?
Bem entendido, o verdadeiro amor é excepcional, dois ou três em cada século, mais ou menos. O resto do tempo, há a vaidade ou o tédio. (...)
Não tenho o coração seco, longe disso, mas, pelo contrário, cheio de ternura, e mais, estou sempre de lágrima ao canto do olho. Só que os meus impulsos sentimentais se dirigem sempre a mim e os meus enternecimentos a mim é que dizem respeito. É falso, no fim de contas, que eu nunca tenha amado.
Conto na minha vida um grande amor, de que fui sempre o objecto. Sob este aspecto, depois das inevitáveis dificuldades dos verdes anos, depressa me tinha fixado: a sensualidade, e só ela, imperava na minha vida amorosa. Buscava somente objectos de prazer e conquista. (...)

Sejamos indulgentes e falemos de enfermidade, de uma espécie de incapacidade congénita para ver no amor qualquer coisa mais que o acto. Esta enfermidade, no fim de contas, era confortável. Conjugada com a minha faculdade de esquecimento, favorecia a minha liberdade. Ao mesmo tempo, por um certo ar de distância e de independência irredutível que me dava, oferecia-me ocasião para novos êxitos. À força de não ser romântico, eu dava um sólido alimento romanesco. As nossas amiguinhas, com efeito, têm isto de comum com o Bonaparte, pensam sempre ter êxito naquilo em que toda a gente falhou. (...)

Quanto a discursos não estava eu mal, pois era advogado, nem quanto a olhares, pois tinha sido, na tropa, aprendiz de comediante. Mudava muitas vezes de papel, mas era sempre a mesma peça. Por exemplo, o número da atracção incompreensível, do "não sei quê", do "não há razões, eu não desejava ser atraído, estava, no entanto, cansado do amor, etc...", era sempre eficaz, posto que seja um dos mais velhos do repertório. (...)
Eu tinha aperfeiçoado, sobretudo, uma pequena tirada, sempre bem recebida, e que o senhor aplaudirá, tenho a certeza. O essencial desta tirada consistia na afirmação, dolorosa e resignada, de que eu não era nada, não valia a pena prenderem-se a mim, a minha vida estava alhures, passava ao lado da felicidade de todos os dias, felicidade que eu talvez preferisse a tudo o resto, mas, enfim, era tarde demais. Sobre as razões deste atraso decisivo, eu guardava segredo, pois sabia que era melhor dormir com o mistério. Em certo sentido, aliás, acreditava no que dizia, vivia o meu papel. Não admira, pois, que também as minhas parceiras se entusiasmassem também com o delas. As mais sensíveis das minhas amiguinhas esforçavam-se por me compreender, e este esforço levava-as a melancólicos abandonos. (...)

Acredite-me, para certos seres, pelo menos, não possuir o que não se deseja é a coisa mais difícil do mundo


Albert Camus | A Queda




it's not you, it's me.
you're damn right it's you.






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posted by saturnine | 15:21 | 3 Comentários


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Das coisas muito muito boas


#1 o cheiro do cimento molhado em dias de chuva
#2 um aroma de cravo e canela a arder na penumbra nocturna
#3 cabelos acabados de lavar
#4 uma mão proibida a queimar a pele por baixo da roupa





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posted by saturnine | 13:35 | 6 Comentários


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Isn't it a little too late for this*


nenhum outro ano assim, sem a marca dos dias, sem a transitoriedade inequívoca das horas, sem qualquer resíduo tangível de um tempo que passa. este ano atrasou-se e acelerou-se, move-se ainda num ritmo descompassado, em rumo incerto. não distingo a substância dos dias, atento na paradoxal celebração de fim de semana à segunda-feira, constato que em 28 anos nada mudou: eu, como o Garfield, i'm not a morning person. não houve lugar para espírito festivo que durasse, muito menos para resoluções de ano novo, menos ainda para balanços de ano passado. a mudança transgride as medidas do tempo: é bruta e não pede licença nem prazo marcado. o que eu quero para 2008 é que páre um pouco antes da chegada de Setembro. que os livros me salvem a vida e que eu salve algumas pessoas. abdiquei de todas as listas, abomino o corropio do engendramento de pódios inúteis e não me interessa nada participar de consensuais anunciações de famigerados melhores do ano: que se fodam todos. i'm not a podium person. a única coisa que eu quero é não esquecer duas coisas: uma, Jean Genet, que na origem da beleza está unicamente a ferida; outra, que não há olhos suficientes para carpir as mágoas de todos os marinheiros que abandonam os navios a meio da viagem. que sejam antes três coisas: para não esquecer, três socos no estômago de 2007.


* The National | Boxer
Odawas | Raven & The White Night
Richard Hawley | Lady's Bridge


e é só.
e é demasiado.






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posted by saturnine | 03:00 | 4 Comentários


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spot player special




"us people are just poems"
[ani difranco]


*

calamity.spot[at]gmail.com



~*. through the looking glass .*~




little black spot | portfolio
Baucis & Philemon | tea for two
os dias do minotauro | against demons
menina tangerina | citrus reticulata deliciosa
the woman who could not live with her faulty heart | work in progress
pale blue dot | sala de exposições
o rosto de deus | fairy tales








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~*. rearview mirror .*~


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~*. spying glass .*~


a balada do café triste . ágrafo . albergue dos danados . almanaque de ironias menores . a natureza do mal . animais domésticos . antologia do esquecimento . arquivo fantasma . a rute é estranha . as aranhas . as formigas . as pequenas estruturas do ócio . atelier de domesticação de demónios . atum bisnaga . auto-retrato . avatares de um desejo . baggio geodésico . bananafish . bibliotecário de Babel . bloodbeats . caixa-de-lata . casa de cacela . chafarica iconoclasta . coisa ruim . com a luz acesa . comboio de fantasmas . complicadíssima teia . corpo em excesso de velocidade . daily make-up . detective cantor . dias com árvores . dias felizes . e deus criou a mulher . e.g., i.e. . ein moment bitte . em busca da límpida medida . em escuta . estado civil . glooka . i kant, kant you? . imitation of life . isto é o que hoje é . last breath . livros são papéis pintados com tinta . loose lips sink ships . manuel falcão malzbender . mastiga e deita fora . meditação na pastelaria . menina limão . moro aqui . mundo imaginado . não tenho vida para isto . no meu vaso . no vazio da onda . o amor é um cão do inferno . o leitor sem qualidades . o assobio das árvores . paperback cell . pátio alfacinha . o polvo . o regabofe . o rosto de deus . o silêncio dos livros . os cavaleiros camponeses no ano mil no lago de paladru . os amigos de alex . Paris vs. New York . passeio alegre . pathos na polis . postcard blues . post secret . provas de contacto . respirar o mesmo ar . senhor palomar . she hangs brightly . some variations . tarte de rabanete . tempo dual . there is only 1 alice . tratado de metatísica . triciclo feliz . uma por rolo . um blog sobre kleist . vazio bonito . viajador


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~*. the bell jar .*~



os lugares comuns: against demons . all work and no play . compêndio de vocações inúteis  .  current mood . filosofia e metafísica quotidiana . fruta esquisita menina aflita . inventário crescente de palavras mais-que-perfeitas . miles to go before I sleep . música no coração  .  música para o dia de hoje . o ponto de vista dos demónios . planos para dominar o mundo . this magic moment  .  you came on like a punch in the heart . you must believe in spring


egosfera: a infância . a minha vida dava um post . afirmações identitárias . a troubled cure for a troubled mind . april was the cruellest month . aquele canto escuro que tudo sabe . as coisas que me passam pela cabeça . fruto saturnino (conhecimento do inferno) . gotham style . mafarricar por aí . Mafia . morto amado nunca mais pára de morrer . o exílio e o reino . os diálogos imaginários . os infernos almofadados . RE: de mail . sina de mulher de bandido . the woman who could not live with her faulty heart . um lugar onde pousar a cabeça   .  correio sentimental


scriptorium: (des)considerações sobre arte . a noite . and death shall have no dominion . angularidades . bicho escala-estantes . do frio . do medo . escrever . exercícios . exercícios de anatomia . exercícios de respiração . exercícios de sobrevivência . Ítaca . lunário . mediterrânica . minimal . parágrafos mínimos . poemas . poemas mínimos . substâncias . teses, tratados e outras elocubrações quase científicas  .  um rumor no arvoredo


grandes amores: a thing of beauty is a joy forever . grandes amores . abraços . Afta . árvores . cat powa . colectânea de explicações avulsas da língua portuguesa  .  declaração de amor a um objecto . declaração de amor a uma cidade . desolação magnífica . divas e heróis . down the rabbit hole . drogas duras . drogas leves . esqueletos no armário . filmes . fotografia . geometrias . heart of darkness . ilustraçãoinício . matéria solar . mitologias . o mar . os livros . pintura . poesia . sol nascente . space is the place . the creatures inside my head . Twin Peaks . us people are just poems . verão  .  you're the night, Lilah


do quotidiano: achados imperdíveis . acidentes quotidianos e outros desastres . blogspotting . carpe diem . celebrações . declarações de emergência . diz que é uma espécie de portfolio . férias  .  greves, renúncias e outras rebeliões . isto anda tudo ligado . livro de reclamações . moleskine de viagem . níveis mínimos de suporte de vida . o existencialismo é um humanismo . só estão bem a fazer pouco


nomes: Aimee Mann . Al Berto . Albert Camus . Ana Teresa Pereira  . Bauhaus . Bismarck . Björk . Bond, James Bond . Camille Claudel . Carlos de Oliveira . Corto Maltese . Edvard Munch . Enki Bilal . Fight Club . Fiona Apple . Garfield . Giacometti . Indiana Jones . Jeff Buckley  .  Kavafis . Klimt . Kurt Halsey . Louise Bourgeois . Malcolm Lowry . Manuel de Freitas . Margaret Atwood . Marguerite Duras . Max Payne . Mia Couto . Monty Python . Nick Drake . Patrick Wolf  .  Sophia de Mello Breyner Andresen . Sylvia Plath . Tarantino . The National . Tim Burton


os outros: a natureza do mal . amigos . dedicatórias . em busca da límpida medida . retalhos e recortes



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...it's full of stars...


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