domingo, 30 de setembro de 2007



It's awful dark


a memória arde. há um hino que a apazigua.
while you're hauting & heartbreaking, i'm just aching and breaking.





© mrcool256


Morphine | The Night


You're the night, Lilah. A little girl lost in the woods.
You're a folk tale, the unexplainable

You're a bedtime story. The one that keeps the curtains closed.
I hope you're waiting for me cause I can make it on my own.
I can make it on my own.

It's too dark to see the landmarks. I don't want your good luck charms.
I hope you're waiting for me across your carpet of stars.
You're the night, Lilah. You're everything that we can't see.
Lilah, you're the possibility.

You're the bedtime story. The one that keeps the curtains closed.
And I hope you're waiting for me cause I can make it on my own.
I can make it on my own.

Unknown the unlit world of old. You're the sounds I never heard before.
Off the map where the wild things grow. Another world outside my door.
Here I stand I'm all alone. Drive me down the pitch black road.
Lilah you're my only home and I can't make it on my own.

You're a bedtime story. The one that keeps the curtains closed.
And I hope you're waiting for me cause I can make it on my own.
I can make it on my own.

You're the paint can falling off the wall at the door that slams at the end of the hall where the kid rings sounds of basketball. The battle of the earth of the angels. The shifting snow drifts so realistic, so realistic - call you carpet of stars. See there is something in the yard. It's awful dark. With the painted strings, the cross, the good luck charm, the prayer, the extra layer...




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posted by saturnine | 19:34 | 7 Comentários


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Bad liver and a broken heart



© lbs 2005




segundo auto-retrato: aos 25 anos descobri o sentido do corpo. que se ama visceralmente, como quem faz das tripas coração. na metáfora do corpo a corpo, o que há de apaixonado na luta e o que há de violento na paixão. cultivei o amor profundo pela epiderme e fiz da escrita um tecido intrincado de ramificações sanguíneas e terminações nervosas. apurei a construção: substitui-se o minotauro pelo prolapso sistólico da válcula mitral. o corpo um gigantesco orgão, de um barro impuro, que falha e dói. perdi, na descoberta do corpo, o sentido da invenção do amor. fiz-me fluída: sangue, suor, lágrimas, secreções, pus. uma intacta ferida. no lugar do peito, uma inscrição invisível, um emblema de Louise Bourgeois: rouge est la couleur du sang. ao fundo, um disco de Einstürzende Neubauten. esgotado o amor, um novo sentido para o corpo: a construção de uma anatomia das palavras. fazer das entranhas um hábito do desenho. aqui estou eu, tão cedo tarde demais, a procurar o sentido de outros corpos, abeirando-me de outros discos. fiz da incerteza uma dedicação profunda às funções corporais. se eu tivesse um tumor, chamava-lhe Marla. mas tenho maus fígados e um coração despedaçado.



Tom Waits | Bad liver and a broken heart

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a pedra de Sísifo #2
posts perdidos em rascunhos tardios, atrasados: 29.09.2007




Esfinge | Museu Nacional de Arqueologia de Atenas | 2006



primeiro auto-retrato: aos 16 anos, descobri o mundo antigo e o mundo clássico. descobri a anima, e acreditava no sopro que anima o corpo. pressenti que poderia envelhecer cedo. aos 20 anos, descobri o sentido da pureza inexcedível da poesia, via Sophia de Mello Breyner. ensinaram-me que, num certo modo de sentir, um peito é uma construção, um labirinto, que carrega um minotauro dentro. e passei então a saber que pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos e conhecem o abismo pedra a pedra, anémona a anémona, flor a flor.
pouco tempo depois, afigurou-se-me justo e certo que se pudesse escrever em busca da límpida medida. por tudo isso, arrisquei um gesto: os dias prometidos, com rostos de Medusas e Antígonas e Penélopes agastadas pelo tempo. desfazendo de noite o meu caminho. esse era o mundo ao qual o mundo deveria pertencer. porque é implacavelmente verdade que o mar de Creta por dentro é todo azul e eu não tenho outras palavras para a comoção da terra e da grandeza de pertencer a todas as coisas, ser igual a uma pedra e desejar chorar de alegria com a cara encostada ao chão.





Dikos, Creta | 2006






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Apontamentos à margem do 'Tratado de Botânica' (Joana Serrado)


(O meu amado está morto e dele nascem flores.)



© lbs 2006




* * *





do corpo. da suma evidência do corpo. da preparação dos rituais do amor. dos versos que ficam na memória:


#será que tens rosto?
#tu nunca viste as tuas costas. mas eu sim.







© joana linda




* * *





das coisas que eu queria ser quando for grande:


A Parte Baixa:

Espero que com esta dissertação sobre o teu corpo,
dissecação do teu corpo,
o presente digníssimo júri me considere apta para envergar o título de
Especialista do Amor,
Mestra na Anatomia das Flores que Brotam do Corpo do Poeta que se dedica à Ciência.




© ~frida-vl

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a pedra de Sísifo #1
posts perdidos em rascunhos tardios, atrasados: 03.09.2007






"Maybe I try too hard" | Exploging Dog



adenda: não é sustentável ter uma canção do Jeff Buckley a tocar várias vezes numa mesma noite - quanto mais durante vários dias. abraçamos as pequenas mortes sem exaltação, sabendo reconhecer o momento de devolver à noite escura a substância do seu sono.

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posted by saturnine | 16:33 | 0 Comentários


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quinta-feira, 27 de setembro de 2007



All dressed up and nowhere to go


enquanto tu avanças, eu sou a que regressa sempre aos lugares antigos. por estes dias, entretenho-me a desejar que construas templos e palácios aos meus pés. enquanto tu não me felicitas sequer pela chegada do outono.





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Afirmação


sou girlie to the bone. tenho um blog onde me afirmo na primeira pessoa e escrevo autobiograficamente sobre tudo, mesmo sobre o que invento. sou um caterpillar. larva e escavadora, é meu ofício habitar entre os escombros. sou girlie to the bone, uma história que não existe, Lilah, a little girl lost in the woods. não tenho vergonha do meu coração defeituoso que treme nem do casaquinho de malha que me passa dos joelhos, de que preciso para que se me aqueça o corpo minúsculo, excessivo. não tenho vergonha do desejo do abraço, porque o abraço é bom, e um corpo gosta de encostar onde a respiração é mais fácil. e não tenho vergonha de afirmar que preciso de ti no meu caminho, que espero que me esperes: 'cause I can't make it on my own. eu estou ainda dentro dessa noite em frente ao Tejo, quando todas as promessas eram ainda possíveis. é a ti que eu amo ou àquele que ficou lá atrás, na noite escura, imobilizado contra o penoso arrastar da memória pelos dias?







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posted by saturnine | 02:39 | 9 Comentários


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quarta-feira, 26 de setembro de 2007



The expected unexpected has come #2


há uma voz que chama, como dois braços estendidos naquele canto escuro que tudo sabe - e quando chama, eu vou. esperei todo o dia. poderias ter vindo. mas nem o sono vem. ainda estou nessa noite parada em frente ao Tejo a comover-me pela primeira vez. não sabia ainda que tanto e tão cedo se morre * nesta vida.



©2007 ~schnin


Jeff Buckley | Lover you should've come over


Looking out the door i see the rain fall upon the funeral mourners
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe i'm too young to keep good love from going wrong
But tonight you're on my mind so you never know

When i'm broken down and hungry for your love with no way to feed it
Where are you tonight, child you know how much i need it
Too young to hold on and too old to just break free and run

Sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that really, he has no-one

So i'll wait for you... and i'll burn
Will I ever see your sweet return
Oh will I ever learn

Oh lover, you should've come over
'Cause it's not too late

Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that will never come

It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever

Well maybe i'm just too young
To keep good love from going wrong

Oh... lover, you should've come over
'Cause it's not too late

Well I feel too young to hold on
And i'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love well i'm waiting for you

Lover, you should've come over
'Cause it's not too late






* d'après Al Berto





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segunda-feira, 24 de setembro de 2007



That's the spirit!






























como eu queria que não fosse para nós - tão cedo - tarde demais.






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domingo, 23 de setembro de 2007




Funny you should ask
ou a segunda explicação dos nomes




*if you really must know*



Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


Miguel Torga






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posted by saturnine | 01:48 | 7 Comentários


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Por outras palavras


enquanto a maioria da juventude anda a delirar com as novidades dos Yeah Yeah Yeahs, eu ando em busca das velharias do Burt Bacharach.


vá, o máximo que concedo é ir espreitar o que anda a fazer o Neil Hannon *inserir corações aqui* com os seus Divine Comedy. que por acaso - só mesmo por acaso - até têm versões de músicas do Burt Bacharach.



A Short Album About Love é um excelente pequeno álbum sobre o amor. o melhor.

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posted by saturnine | 00:17 | 6 Comentários


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sábado, 22 de setembro de 2007



The Ballad of Paper Ships





hoje em dia, não me seduzo com facilidade. cada vez me deslumbro mais pelas velhas coisas, e menos me entusiasmo com um admirável mundo novo de descobertas. daí que seja de assinalar esta pérola que me apanhou desprevinida, de seu nome Odessa Chen. não sei durante quanto tempo durará este subtil deslumbramento de menina por este The Ballad of Paper Ships, não imagino se é feito de substância que resista ao desgaste do tempo e à erosão afectiva. por ora, não importa. em noites como esta, quero bem que as PJ Harveys deste mundo fiquem de matraca fechada. precisava mesmo de um vídeo como este:




it's bright white
won't you kill the lights
retrace steps
moving right then left

blown the leaves
see the swingset swings
everyday pulled down like paper shades

damn the day
how it hurts to leave a trace
miles conspire to erase
but i still see your face

majesty, threadbare beauty
no where town
clotheslines blown down

oh!
backways by the trains
the sky spills the last grim light
shadows roll from my feet
like bolts of fine black silk

pale birds
there where the heart was
come close and they fly


Odessa Chen | Kill the lights






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It don't mean a thing if it ain't got that swing



fotografia de Bruno Espadana


boy, she got swing! que linda é a Petra Lee. hoje a minha tarde fez-se com Nobody's Bizness numa certa e determinada área comercial cujo nome começa com F e termina com C. uma boa dose de good old fashioned delta blues, em versão blues acústico e rural. como água para lavar a alma. eu poderia passar a vida sem fazer mais nada que não fosse abanar o corpo ao som desta voz olímpica. Petra não fica a dever nadinha a Bessie Smith. deveriam estender passadeiras vermelhas por onde ela aparecesse a cantar. os Nobody's Bizness deviam ser textualmente pagos para editar discos. comoveu-me que o Catman me parecesse ter um certo quê de tio Tom. lots and loads of swing, man. há disco disponível para download legal na página da You are not stealing records.





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posted by saturnine | 19:46 | 7 Comentários


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quinta-feira, 20 de setembro de 2007



Isto anda tudo ligado


o sentido que faz falar em funções corporais, na voz de uma tal woman who could not live with her faulty heart, é o de nos colocarmos, inequívocos, perante a pergunta:


(...)
se o corpo por si
falha e dói
para que queremos ainda
a invenção do amor?

.




representa, acima de tudo, a possibilidade de nos defrontarmos, vezes e vezes sem conta, com um certo canto escuro que nos olha e tudo sabe, e que interrompe ocasionalmente o seu sono para nos chamar, como dois braços esticados na escuridão. poucas coisas confrangem tanto como a evidência de um corpo que falha, adoece e dói.





Oh, just want to push somebody
Your body won't let you
Just want to move somebody
Body won't let you
You want to feel somebody
Body won't let you
Who, who, who do you talk to?
Who do you talk to?
Who do you talk to?
When your body's in trouble
The body's in trouble
The body's in trouble
When your body's in trouble, who?

Oh, you just want to run somebody
And a body won't let you
You want to let somebody
And a body won't let you
You just want to kiss somebody
You want to feel somebody
And a body won't let you
Oh who, oh who, who do you talk to?
Who do you talk to?
Who, who do you talk to?
Oh, who do you talk to?
When a body's in trouble
Oh, the body's in trouble
Who who who do you talk to?
Oh who oh who oh who
who, who

Oh you just want to take somebody
Your body won't let you
You just want to, want to hear somebody
And a body won't let you
You just want to ride somebody
Oh a body won't let you
Who do you talk who, who do you talk to?
Who do you talk to? Who?
When a body's in trouble, a body's in trouble
When a body's in trouble, in trouble, in trouble
When a body's in a trouble
Oh, when a body's in trouble
Who who who do you talk to?
Oh who oh who oh


Mary Margaret O'Hara | Body's in trouble




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posted by saturnine | 19:30 | 6 Comentários


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silence is definitely sexy





Einstürzende Neubauten | In Circles



tudo o que eu teria a dizer sobre as minhas funções corporais
:




beauty remains in the impossibilities of the body.







I wish this would be your colour:


rouge est la couleur du sang * Louise Bourgeois



[ + ]

[ + ]

[ + ]

[ + ]




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posted by saturnine | 12:38 | 8 Comentários


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beautiful freak *


toda a minha vida, my beloved monster and me **






one day the world will be ready for you and wonder how they didn't see. ***


aos citrinos deste mundo.




* |** |*** Eels



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posted by saturnine | 11:24 | 9 Comentários


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segunda-feira, 17 de setembro de 2007



fruto saturnino




quando Setembro chega, a polpa dos meus dedos adquire a súbita coloração das romãs. como um signo interno reconhecido: é altura de recolher a uma condição subterrânea. a terra também se faz das pequenas mortes. lembro-me que é sempre no outono que a memória evoca os lugares da infância. eu serei o que puder dizer que lembro de mim. da familiaridade se constrói a escrita. há um lugar em mim onde é sempre Novembro de folhas caídas. nalgum lugar em mim há gente espalhada pela casa, livros novos embrulhados em papel colorido, e cheira a castanhas assadas e madressilvas no caminho.



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posted by saturnine | 21:14 | 6 Comentários


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carta aberta ao meu amigo invisível


Why do you say everything as if you were a thief?
Like what you stole has no value?
Like what you preach is far from belief?


American Music Club





eras qualquer coisa outra quando me chegaste. uma mentira menos aguda do que esta. (re)conhecia-te no tempo em que me falavas e fazias das noites um lugar menos solitário. com os dedos moldavas-me sorrisos na boca e seguravas uma cordinha invisível para que nunca me perdesse no meio das sombras. tenho saudades de o mundo ser um lugar onde era possível nomear-te. tenho saudades de ser um lugar onde pousar a cabeça.
poque te calaste? porque atravessaste para esse outro lado do silêncio? acreditar em ti já não basta, eu preciso da tua mão invisível. e que tenhas voz, para que existas. mas tu avançaste para onde eu não te posso seguir. porque abandonaste este lugar onde eras verdade? porque levas atrás de ti esse séquito de canibais? porque vais mudo, mesmo quando vais a meu lado? porque te juntas a esses devoradores lambe-cus quando eu te teria acompanhado a troco de nada? à distância, dilui-se a recordação que tenho de ti. temo que um dia te esqueça e seja como se nunca tivesses existido. que será de ti, que te entregas de coração aberto aos leões, quando eu teria gostado de ti apesar de toda a enfermidade que trazes dentro?




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posted by saturnine | 14:23 | 8 Comentários


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sexta-feira, 14 de setembro de 2007



a explicação dos nomes


little black spot

by



saturnine

sat·ur·nine /ˈsætərˌnaɪn/ [sat-er-nahyn]
–adj.

1. sluggish in temperament; gloomy; taciturn.
2. suffering from lead poisoning, as a person.
3. due to absorption of lead, as bodily disorders.


1. Having the temperament of one born under the supposed astrological influence of Saturn.
2. Melancholic or sullen.
3. Having or marked by a tendency to be bitter or sardonic: a saturnine expression on his face.
4. Produced by absorption of lead.





calamity spot



little black SPOCK. It is I, Leclerc! I'm in disguise.





claire lunar

spacegirl lunar chick



Treat me wrong honey I don't care
You never liked much anyway
You told me meet you about half past eight
You said you'd kill me if I was late Claire
Oh Claire








insensatez



A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor
O seu amor
Um amor tão delicado
Ah, porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração quem nunca amou
Não merece ser amado


Tom Jobim





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posted by saturnine | 00:10 | 10 Comentários


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quinta-feira, 13 de setembro de 2007



The woman who could not live with her faulty heart




ao longo dos anos em que tenho escrito, há meia dúzia de imagens e temas recorrentes:


# a memória fictícia de uma casa branca ao pé do mar (pedra solar)
# o meu demónio de estimação, o minotauro triste
# o canto escuro, que tudo sabe
# a intacta ferida/a ferida aberta
# a desolação magnífica, a vastidão por dentro, o vazio bonito: o deserto.
# os subterrâneos: a noite, o outono, a morte
# o buraco no peito


tenho a cabeça povoada (assombrada?) de personagens, lugares, histórias por escrever. na maioria das vezes, não sei o que lhes fazer. temo um dia a falha da memória. como sempre me angustia o destino incerto das promessas que ficam por cumprir.





The woman who could not live with her faulty heart ---> Margaret Atwood



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adenda: o buraco no peito. Candy, Candy Candy, I can't let you go.





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posted by saturnine | 17:48 | 21 Comentários


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A explicação do Mal


gosto de pensar na blogoesfera como uma espécie de cosmogonia. gosto de pensar que observo, à medida do tempo que passa, a evolução das gerações. acredito no devir. e acredito na sobrevivência que me faz pensar numa obrigação de continuidade, para que as memórias persistam. foi assim que me surgiu a designação de deuses de primeira geração para um blog como A Natureza do Mal, que será sempre e sem qualquer sombra de dúvida um blog irmão deste.

há uns anos, durante o primeiro ano do Olimpo, a Sofia - possuidora de um lirismo refinadíssimo - surpreendeu a blogosfera com um auto-retrato inesperado, em RE: de mail:


«Habito a terra dos que passam. A morte é a minha maior especialização. Detesto a chuva nos pulsos, desconcerta-me quem se senta ao Sol. Tive um amor que deixei no Verão. Sofro dum mal de espanto, tenho um problema de estilo, sou vulgar. Hoje entristeci demais.»



a blogoesfera respondeu, como um eco vindo de todos os cantos. primeiro foi o Carlos Aberto Machado. depois fui eu, lembrando um exercício passado. aos poucos, fomos todos - os amantes d'O Mal. os nossos RE: de mail foram publicados ao longo de mês de Outubro de 2003 e qualquer blogger que se preze deveria necessariamente consultar estes arquivos. creio que durante algum tempo pensamos que nunca mais iríamos parar de responder, em RE: de mail. foi daí que nasceu, pelas mãos do Hugo, a imagem que durante mais tempo povoou a literatura deste blog: um certo canto esuro, que tudo sabe.

fiz muitas versões do primeiro auto-retrato em RE: de mail que enviei para o Mal, que estarão certamente perdidas ao longo dos arquivos deste blog. não gosto de quase nenhuma, embora haja verdade em quase todas. por isso é que não podia deixar de me comover com este post desta menina, deusa de geração jovem, que se mostrou ao mundo em RE: de mail sem o saber, sem ninguém lho ter dito, sem ninguém lhe ter perguntado. menina limão, não és família só por seres citrina. és família porque também transportas O Mal.




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posted by saturnine | 16:25 | 1 Comentários


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o meu melhor amigo, Alzheimer


cof cof cof


*patente na associação cultural Mercado Negro, em Aveiro, até 7 de Outubro.

3ª a Sábado: 13h - 00h
Domingo: 15h - 00h
R. João Mendonça, 17
3800-200 Aveiro

*Selecção dos poemas
Mercado Negro


*Design e ilustrações
Menina Limão



*Nota: as ilustrações não pretendem ser representativas ou interpretativas dos poemas. Nasceram de ideias relacionadas com a poesia, com a sua natureza e com algumas das suas temáticas.




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posted by saturnine | 16:22 | 0 Comentários


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terça-feira, 11 de setembro de 2007



coisas que acontecem (duas vezes) #8


depois de três dias de ausência, ia escrever um post e esqueci-me o que era.



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posted by saturnine | 20:12 | 7 Comentários


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sábado, 8 de setembro de 2007



Just like a factory girl


é certo que tanto quanto se sabe o amor de Edie Sedgwick por Bob Dylan nunca foi correspondido. também é certo que ela deve ser uma daquelas para quem demasiado cedo na sua vida foi tarde demais.* e porque isto me bastou para ir a correr ouvir todos os discos desse demónio de olhar lancinante que possuo, o meu quarto é agora um lugar vagamente assombrado. (it's alright, ma. i'm only bleeding).






(...)
Nobody has to guess
That Baby can't be blessed
Till she sees finally that she's like all the rest
With her fog, her amphetamine and her pearls.
She takes just like a woman, yes, she does
She makes love just like a woman, yes, she does
And she aches just like a woman

But she breaks just like a little girl.

It was raining from the first
And I was dying there of thirst
So I came in here
And your long-time curse hurts
But what's worse
Is this pain in here
I can't stay in here
Ain't it clear that

I just can't fit
Yes, I believe it's time for us to quit
When we meet again
Introduced as friends
Please don't let on that you knew me when
I was hungry and it was your world.
Ah, you fake just like a woman, yes, you do
You make love just like a woman, yes, you do
Then you ache just like a woman

But you break just like a little girl.

Bob Dylan | Just like a woman





* d'après Marguerite Duras



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posted by saturnine | 19:28 | 6 Comentários


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Declarações de amor (in)oportunas


# a lebre tem um blog muito bonito, e eu demoro-me sempre mais nos blogs bonitos. é aquela cor. se eu não fosse ponto preto, seria certamente uma beringela.



# tenho demasiada gente dentro para poder nomear um mais-que-tudo da música. mas se tivesse, seria o rei:


David Bowie




# o que salva o filme "Factory Girl" é a introdução da personagem que lhe confere densidade, dramatismo, intensidade: o músico misterioso por quem Edie Sedgwick se apaixona. é claro que o músico não é assim tão misterioso. ou não fosse óbvio que um certo olhar vagamente demoníaco, lancinante, arrasador, recriado pelo menino Hayden Christensen é sem qualquer sombra de dúvida o olhar de Bob Dylan.






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posted by saturnine | 13:53 | 5 Comentários


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southern boy, you brighten my northern sky


o que eu gosto na dupla Before Sunrise e Before Sunset são os 10 anos que existem pelo meio. gosto das histórias que crescem e evoluem e se adensam e intensificam. gosto de histórias inacabadas, tanto quanto elas permitem a ilusão de imaginar mais além. ainda hoje me custa sempre a crer quando o mundo avança sem mim, e eu não sei como sair do lugar. o que também gosto nestes filmes é que me fazem sempre pensar, por vias travessas, na melhor frase que o cinema já viu - Here's looking at you, kid!. é que dentro desses 10 anos que separam a Julie Delpy e o Ethan Hawke do seu reencontro, há lugar para uma promessa de história por escrever: maybe one day we'll have Paris. qualquer coisa que o Nick Drake teria dito assim:


Time has told me
You're a rare rare find
A troubled cure
For a troubled mind.

And time has told me
Not to ask for more
Someday our ocean
Will find its shore.

So I`ll leave the ways that are making me be
What I really don't want to be
Leave the ways that are making me love
What I really don't want to love.

Time has told me
You came with the dawn
A soul with no footprint
A rose with no thorn.

Your tears they tell me
There's really no way
Of ending your troubles
With things you can say.

And time will tell you
To stay by my side
To keep on trying
'til there's no more to hide.

So leave the ways that are making you be
What you really don't want to be
Leave the ways that are making you love
What you really don't want to love.

Time has told me
You're a rare rare find
For some day our ocean
Will find its shore.


(ouvir)




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posted by saturnine | 04:38 | 2 Comentários


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Agnès e outros distúrbios líricos


se tivesse que escolher de entre todas as palavras do mundo as que mais me dizem - e que mais dizem sobre mim - sem qualquer hesitação seriam estas:


«Não sou nada
Não quero ser nada
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»


Álvaro de Campos


a descoberta de um poema como a Tabacaria aos 15 ou 16 anos é um episódio francamente marcante na vida de uma adolescente. uma abertura assim abrupta e incisiva, irredutível, sem rodeios nem contemplações, como um soco no estômago, é coisa para permanecer marcante para o resto da vida. nunca encontrei outros versos com tão absoluto e inultrapassável significado. é uma pungência para a qual não poderá jamais haver segundas palavras, reformulações ou ajustes. o início da Tabacaria é a evidência inquestionável da perfeição lírica. a personificação exacta da pedra polida, mínima, despida de tudo quanto é acessório, que a poesia deve ser. não deixa de ser curioso que anos mais tarde me tenha deparado com isto

«I like darkness confusion and absurdity, but I like to know that there's a door I can escape into an area of happiness.»
David Lynch

e percebido que, no fundo, até dizem o mesmo. há um sentimento comum, de contradição essencial, que reune ambas as afirmações num mesmo domínio da plena identificação metafísica. por que é que eu haveria de ter que escolher de entre todas as palavras, estas, para que o mundo saiba o que tenho a dizer de mim, isso é que já não sei. como é certamente evidente, este é por excelência um blog na primeira pessoa. também aos 16 anos, li o livro que marcou a primeira grande viragem rumo a um crescimento à força, inesperado: A Imortalidade de Milan Kundera. não devo ter relido nenhum outro livro tantas vezes, ao ponto de chegar a confundir-me com ele. Agnès foi certamente uma das personagens mais marcantes da minha vida até ao momento. durante anos imaginei que de facto não deveria haver nada que uma mulher pudesse desejar mais do que enfrentar uma multidão segurando um miosótis à altura dos olhos. aniquilar o mundo, o excesso de gente, os ruízos, as vozes, a insolência intrusiva dos transeuntes com um amuleto carregado de simbolismo - Agnès, caminhando como se fosse invisível, como se desaparecesse, e caminhando rumo ao desaparecimento total, avançava como quem dizia: forget-me-not. pode fazer-se desaparecer o mundo nos concentrarmos numa minúscula flor azul, segura à altura dos olhos. Agnès era especial. a multidão não a via realmente. não podia supôr que os seus pensamentos não eram deste mundo. os seus gestos eram daqueles que duravam eternamente, deixando o momento suspenso na graciosidade de um mover de braço. Agnès não gostava das mulheres que não sabem fazer outra coisa senão falar de si. como aquela no balneário do ginásio que, em escassos minutos, afirmou claramente ao mundo o quanto gostava de duches frios. eu sou esta mulher a interromper o imaginário sanitário de Agnès. eu sou esta mulher que chega ao mundo e, mais do que anunciar ter coisas para dizer, as diz mesmo. eu sou o besouro insolente de Kundera. mas que não se deixem enganar: eu não quero que o mundo saiba de mim. falo tão somente para que o mundo me responda.








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posted by saturnine | 03:14 | 4 Comentários


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sexta-feira, 7 de setembro de 2007



little black spot hails mozilla


só muito esporadicamente me ocorre a existência desse tal browser da praxe a que chamam Internet Explorer. coisinha mixuruca. espero honestamente que todos os meus leitores se encontrem já na facção Mozilla Firefox. por uma simples razão: é que isto não tem nada a ver com isto.



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posted by saturnine | 15:47 | 5 Comentários


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O meu blog é um blog respeitável


tenho visto por aí os bloggers e as bloggers divagar sobre o insólito do big brother sitemetereano, que revela assim sem pudor nenhum as bizarrias de que os visitantes vêm em busca quando desembarcam via google. vi coisas que nem me atrevo a repetir. pois então tenho a dizer que neste blog não há cá poucas vergonhas. é uma monotonia. quem chega, vem à procura exactamente do que encontra: do próprio "little black spot" na maioria das vezes. da "dormência na ponta dos dedos". do Robert Frost e da Erykah Badu. e estava já a ficar vagamente desapontada, não fora o inesperado: também cá vêm à procura do Samuel L. Jackson e do "Ezekiel 25:17". e o meu blog é o primeiro da lista dos resultados.



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posted by saturnine | 05:01 | 2 Comentários


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quinta-feira, 6 de setembro de 2007



Enfermidade e cura


há discos que são assim como uma espécie de doença, que vem e vai, conforme os momentos evocam e inflamam as paixões que nos ligam a eles, e que amamos apesar do quanto nos doem, como quem passa repetidamente a língua no lugar sangrento de onde foi arrancado um dente. não é preciso muito para reconhecer um disco assim, porque ele se afirma, inequívoco, desde o primeiro momento. é assim Lady's Bridge de Richard Hawley, que, não fora a existência de um certo e determinado Boxer *, arrebatava desde já sem hesitação o lugar de melhor coisa que aconteceu este ano. dificilmente voltarei a gostar tanto de um disco nos próximos meses. pior ainda, quando confirmo que aquilo traz o outono por dentro. há-de ser perfeito para quando anoitecer demasiado cedo sobre as folhas caídas no chão. maldição a minha, esta de gostar tanto de gajos estragados. não duvidem de mim. "Valentine" é uma música tão comoventemente perfeita que quando a ouvi a primeira vez parecia que tinha estado toda a minha vida à espera dela.




Richard Hawley | Valentine


se Richard Hawley está do lado da enfermidade, como veneno que, em doses mais ou menos cuidadas, administro diariamente, alegro-me em dizer que finalmente descobri que há coisas que fazem todo o sentido perto umas das outras - melhor ainda: descobri que também na música há uma espécie de alquimia, em que é possível produzir efeitos mágicos se conjugadas as substâncias certas. como se abrisse as janelas para uma manhã fresca, do lado da cura está Night Falls Over Kortedala, o novo disco do Jens Lekman. há quem ache que está cheio de canções perfeitas. eu não peço tanto. limito-me a regozijar com a alegria que lhe encontro. este disco é um bálsamo. melhor que isso: é um antídoto.



* The National



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posted by saturnine | 18:38 | 11 Comentários


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terça-feira, 4 de setembro de 2007



maybe I try too hard *


o post anterior é a evidência inquestionável de como se escreve em busca de uma ordem, para organizar um caos interior. um poema... bem, esse pode ser trabalhado internamente, em silêncio, de modo quase imperceptível, durante dias, semanas, meses a fio, e sair pronto ao primeiro ensaio como uma pedra perfeita cuspida subitamente do interior da terra. mas é a um outro tipo de escrita que se refere o exorcismo. porque nem sempre as palavras dizem tudo sobre o carácter. e porque há momentos em que um homem, por uma razão ou por outra, sente necessidade de se situar. escreve-se então para aplacar a angústia e tentar perceber se se é ou não isso a que chamam uma boa pessoa.


* Exploding Dog



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posted by saturnine | 19:41 | 4 Comentários


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my life is amazing but im always worried about something and i dont know what it is *


reconheço: não sou digna de citar e acreditar que people are tricky, you can't afford to show/ anything risky, anything they don't know/ the moment you try, you kiss it goodbye. [Aimee Mann] se fosse, teria certamente aprendido que há alguns momentos em que a literalidade na lírica faz a diferença (oh, contradição para que te quero...). quer dizer, eu vi a podridão do mundo. abri os olhos à força para um horror que não era nada o que eu queria ver. mas vi. e nele as pessoas são imperfeitas e más, trazem a podridão por dentro. o que eu não percebo é este braço-de-ferro contra o dado adquirido, o crucificar pela diferença, a subjugação ao medo. não percebo e assumo a angústia inesgotável de remar contra a maré. o mundo é um lugar cruel para um perfeccionista. pior ainda se o perfeccionista erra e falha, falha todos os dias, mete os pés pelas mãos, faz o que não deve, se se esquece da reserva que o protege da nudez e se envergonha, à vista de todos, exibindo para além de qualquer sombra de dúvida a evidência da sua imperfeição.

a utopia do virtuosismo pode dar cabo da vida de um homem. ainda há alguns quantos tocados pela virtude, numa espécie de Olimpo a que nos fazem crer que devemos desejar aceder. mas que não haja equívocos: eu encontro-me do lado podre do mundo. estico o pescoço para respirar à superfície a ilusão de um ar puro e cristalino, com os pés enterrados na lama. eu pertenço à raça daqueles condenados a conhecer de cor a desilusão. onde há um corpo que, por imprudência, exibe o rasto de uma ferida, logo há sete cães ávidos de o abocanhar. triste é quando vêm os cães guiados pelas mãos de amigos. e se não sou digna, portanto, de citar a Aimee Mann é porque, sabendo-o, me esqueço constantemente de como se sobrevive, de como é o saber-estar num mundo carnívoro, de como o animal acossado se resguarda e camufla, não se se dirige a correr para a boca aberta da floresta onde o perigo espreita.




* Exploding Dog



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posted by saturnine | 13:01 | 4 Comentários


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segunda-feira, 3 de setembro de 2007



The Exploding Dog



"You said forever"

© Exploding Dog



o Exploding Dog é um site de ilustração dos mais antigos que conheço e dos que mais frequentemente visito. no fundo, até é uma espécie de Post Secret, com mecanismos diferentes: Sam Brown é o ilustrador. as pessoas escrevem, de todas as partes do mundo, e sugerem frases/títulos a partir dos quais ele faz os desenhos. e há ali um imaginário fascinante a explorar. imperdível. exposição no pale blue dot.



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posted by saturnine | 17:30 | 0 Comentários


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domingo, 2 de setembro de 2007



so this is literature (#5)


não será fácil voltar a acontecer uma deambulação domingueira tão extensa por aqui. por isso, é aproveitar e fartar, vilanagem! sobre os posts autobiográficos, então:

quando se pensa que se seria feliz se se fizesse vida a escrever sobre qualquer coisa, arranja-se maneira de pelo menos passar a vida a fazê-lo. desde que me lembro de saber escrever que o faço. e antes de escrever, desenhava. a minha existência sobrevive à custa de ser riscada, portanto. toda a vida tive cadernos. e quando a caligrafia se tornou um estorvo, pelo desábito, arranjei outros. hoje em dia, quando se pensa que se seria feliz se se fizesse vida a escrever sobre qualquer coisa, cria-se um blog. uma espécie de speaker's corner privado onde tudo é permitido, mesmo dizer mal da rainha de Inglaterra. escreve-se, sim, para fazer qualquer coisa deste ofício de existir. correndo o risco de me repetir, sou uma lírica por natureza. aqui, não me distingo. poderia dizer, sem mentir, que todos os meus posts são autobiográficos, se imaginar que escrevo como quem marca no chão um X e afirma: "este é o lugar de onde eu vejo o mundo".

à parte isso, a literalidade assusta-me. um escrever virado para dentro, apesar de tudo, não é exactamente o mesmo que um escrever sobre si. o que há de exorcismo e catarse e libertação numa escrita dirigida aos demónios interiores, é precisamente o que transcende a literalidade das memórias e dos afectos. é a transformação, a metamorfose proporcionada pelas palavras, que faz do que dói e do que comove qualquer coisa outra que valha a pena perpetuar. que não se lhe substitui mas que o universaliza, descentrando-o. isto é: o que dói, se transformado pela escrita, assume uma existência nas palavras que transcende o que é facto, o que é vivido, e adquire a sua existência própria enquanto lírica, independentemente do objecto que o alimenta. se eu escrevo para ti é porque me é conveniente que exista esse abstracto de alguém em quem eu possa reunir as coisas que gostaria de poder dizer. e digo-as de qualquer modo, quer me dirija a um tu real ou imaginário ou híbrido de todos os alguéns a quem gostaria de poder dizer coisas – porque o que importa é que há um propósito de escrever. as palavras emergem, como crescenças fibrosas num corpo a que têm que ser arrancadas, para garantir a sua sobrevivência. ou pelo menos é isto que se faz neste blog. arrancar nacos de carne à matéria do mundo.

num semelhante gesto, está sempre implícita a procura do outro. é que um escrever virado para dentro também não é exactamente o mesmo que escrever para si. se se escreve busca-se reconhecimento, empatia, comoção. escreve-se num blog em vez de num caderno privado porque há um espaço onde o outro desempenha um papel importante, de ver através das nossas palavras as coisas que nomeamos - e rever-se ou não nelas. mas de um modo ou de outro, sempre tocar. comunicar. ligar. mas se por um lado se escreve em prol da empatia, por outro a subjectividade – bem, na verdade preferia chamar-lhe ambiguidade – facilita as conclusões precipitadas, os equívocos, os mal-entendidos. é um risco que se assume, sempre que se escreve. até porque não escrevemos sempre para ser bem entendidos. e se na maioria das vezes me é indiferente a forma como me lê o anónimo leitor que de um lugar ou de outro vem cá parar, acontece que outras vezes me desencorajam as interpretações deturpadoras. há uma cumplicidade desejada, implícita na empatia a pouco e pouco conquistada, mas há um espaço de liberdade que o anonimato permite que a intimidade tende a diluir por completo. o que também é desejável por seu lado. gerir o grau de exposição. escrever de modo autobiográfico. fabricar. fabricar coisas melhores que os sentimentos com as palavras que eles originam. tudo coisas difíceis.

na maioria das vezes, nem imagino o quão obsessiva devo parecer a quem não está na posse da informação toda. o que é perfeitamente compreensível, uma vez que sou mesmo obsessiva. mas não me entendam mal: como diz um amigo meu, em pessoa sou muito menos bulímica do que na escrita. esgoto os assuntos, e anseio sempre secretamente para que não esgotem – enquanto há assunto, há matéria de escrita. esgoto as memórias das perdas, não porque me doam permanentemente, mas porque justificam a evocação de frases assim: “morto amado nunca mais pára de morrer” [Mia Couto]. agora imaginem repetir esta frase até à exaustão. a certa altura, ela há-de deixar de dizer tanto. há-de separar-se da própria metáfora que a anima, há-de desprender-se de qualquer objecto com que se identifique. e ainda assim, permanecerá uma frase fabulosa. é esse o valor da escrita. superar, em riqueza e valor, as próprias coisas que circunscreve.

há em mim uma rede de associações afectivas inevitáveis, que levam a sentir-me neste blog, por vezes, como habitando uma casa cheia de fantasmas. e por causa disso mesmo, por vezes, apetece-me abandonar tudo e partir para um deserto desconhecido. escrever noutro lado, onde seja possível ainda tratar fantasmas pelo nome, sem constrangimentos de pudor. mas não me interessa. isto é que tenho a dizer ao mundo: separei-me de ti, e o que me dói, dói agora secretamente. agradeço-te a música e os filmes, os amores e desamores, a pele e a ferida. mas não é já a ferida que esta escrita evoca: é o espaço em volta, de pele dorida, que eu não sei descrever – e por isso escrevo, como quem tacteia. dizer do amor, pela enésima vez, não é portanto equivalente a amar-te ainda. é só, como quem tacteia, procurar o lugar de ter-te amado. e por isso é que escrever é inventar, e é preencher os espaços em branco, e é completar o que falta à substância dos dias. atribuir uma ordem interna a todas as coisas. simular "um lugar onde pousar a cabeça". ofício de quem, como diz tão bem este gajo, "tem de gerir uma kasbah por dentro".





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posted by saturnine | 21:08 | 14 Comentários


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deambulações tarantinescas de domingo à tarde com sol #2







uma banda sonora de um filme sobre carros e estradas e gajas quer-se para se ouvir no carro, estrada fora. e eu não faço outra coisa há vários dias. contudo, só hoje, num momento de inspiração verdadeiramente mafiosa, me ocorreu por que faz todo o sentido o diálogo da Tracie Thoms com a Zoe Bell imediatamente antes da faixa de Eddie Beram, Riot in Thunder Alley: é que o diálogo é um preâmbulo perfeito para o célebre "I'm the horniest mothafucka on the road!", e a música é por excelência um sonoro de arena, de deserto, de duelo de far-west clinteastwoodiano, inimigos frente a frente sob um sol castigador, silenciosos e com ar de mauzões, quase sem qualquer vestígio de sombra recortado no chão, aguardando nervosamente uma corrida contra a morte.



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posted by saturnine | 19:06 | 4 Comentários


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deambulações tarantinescas de domingo à tarde com sol #1


algo me diz que se eu e a limão nos víssemos a fazer uma cena diário-de-Bridget-Jones





seria sem dúvida nenhuma com esta música:





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posted by saturnine | 18:22 | 2 Comentários


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spot player special




"us people are just poems"
[ani difranco]


*

calamity.spot[at]gmail.com



~*. through the looking glass .*~




little black spot | portfolio
Baucis & Philemon | tea for two
os dias do minotauro | against demons
menina tangerina | citrus reticulata deliciosa
the woman who could not live with her faulty heart | work in progress
pale blue dot | sala de exposições
o rosto de deus | fairy tales








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~*. rearview mirror .*~


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~*. spying glass .*~


a balada do café triste . ágrafo . albergue dos danados . almanaque de ironias menores . a natureza do mal . animais domésticos . antologia do esquecimento . arquivo fantasma . a rute é estranha . as aranhas . as formigas . as pequenas estruturas do ócio . atelier de domesticação de demónios . atum bisnaga . auto-retrato . avatares de um desejo . baggio geodésico . bananafish . bibliotecário de Babel . bloodbeats . caixa-de-lata . casa de cacela . chafarica iconoclasta . coisa ruim . com a luz acesa . comboio de fantasmas . complicadíssima teia . corpo em excesso de velocidade . daily make-up . detective cantor . dias com árvores . dias felizes . e deus criou a mulher . e.g., i.e. . ein moment bitte . em busca da límpida medida . em escuta . estado civil . glooka . i kant, kant you? . imitation of life . isto é o que hoje é . last breath . livros são papéis pintados com tinta . loose lips sink ships . manuel falcão malzbender . mastiga e deita fora . meditação na pastelaria . menina limão . moro aqui . mundo imaginado . não tenho vida para isto . no meu vaso . no vazio da onda . o amor é um cão do inferno . o leitor sem qualidades . o assobio das árvores . paperback cell . pátio alfacinha . o polvo . o regabofe . o rosto de deus . o silêncio dos livros . os cavaleiros camponeses no ano mil no lago de paladru . os amigos de alex . Paris vs. New York . passeio alegre . pathos na polis . postcard blues . post secret . provas de contacto . respirar o mesmo ar . senhor palomar . she hangs brightly . some variations . tarte de rabanete . tempo dual . there is only 1 alice . tratado de metatísica . triciclo feliz . uma por rolo . um blog sobre kleist . vazio bonito . viajador


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~*. the bell jar .*~



os lugares comuns: against demons . all work and no play . compêndio de vocações inúteis  .  current mood . filosofia e metafísica quotidiana . fruta esquisita menina aflita . inventário crescente de palavras mais-que-perfeitas . miles to go before I sleep . música no coração  .  música para o dia de hoje . o ponto de vista dos demónios . planos para dominar o mundo . this magic moment  .  you came on like a punch in the heart . you must believe in spring


egosfera: a infância . a minha vida dava um post . afirmações identitárias . a troubled cure for a troubled mind . april was the cruellest month . aquele canto escuro que tudo sabe . as coisas que me passam pela cabeça . fruto saturnino (conhecimento do inferno) . gotham style . mafarricar por aí . Mafia . morto amado nunca mais pára de morrer . o exílio e o reino . os diálogos imaginários . os infernos almofadados . RE: de mail . sina de mulher de bandido . the woman who could not live with her faulty heart . um lugar onde pousar a cabeça   .  correio sentimental


scriptorium: (des)considerações sobre arte . a noite . and death shall have no dominion . angularidades . bicho escala-estantes . do frio . do medo . escrever . exercícios . exercícios de anatomia . exercícios de respiração . exercícios de sobrevivência . Ítaca . lunário . mediterrânica . minimal . parágrafos mínimos . poemas . poemas mínimos . substâncias . teses, tratados e outras elocubrações quase científicas  .  um rumor no arvoredo


grandes amores: a thing of beauty is a joy forever . grandes amores . abraços . Afta . árvores . cat powa . colectânea de explicações avulsas da língua portuguesa  .  declaração de amor a um objecto . declaração de amor a uma cidade . desolação magnífica . divas e heróis . down the rabbit hole . drogas duras . drogas leves . esqueletos no armário . filmes . fotografia . geometrias . heart of darkness . ilustraçãoinício . matéria solar . mitologias . o mar . os livros . pintura . poesia . sol nascente . space is the place . the creatures inside my head . Twin Peaks . us people are just poems . verão  .  you're the night, Lilah


do quotidiano: achados imperdíveis . acidentes quotidianos e outros desastres . blogspotting . carpe diem . celebrações . declarações de emergência . diz que é uma espécie de portfolio . férias  .  greves, renúncias e outras rebeliões . isto anda tudo ligado . livro de reclamações . moleskine de viagem . níveis mínimos de suporte de vida . o existencialismo é um humanismo . só estão bem a fazer pouco


nomes: Aimee Mann . Al Berto . Albert Camus . Ana Teresa Pereira  . Bauhaus . Bismarck . Björk . Bond, James Bond . Camille Claudel . Carlos de Oliveira . Corto Maltese . Edvard Munch . Enki Bilal . Fight Club . Fiona Apple . Garfield . Giacometti . Indiana Jones . Jeff Buckley  .  Kavafis . Klimt . Kurt Halsey . Louise Bourgeois . Malcolm Lowry . Manuel de Freitas . Margaret Atwood . Marguerite Duras . Max Payne . Mia Couto . Monty Python . Nick Drake . Patrick Wolf  .  Sophia de Mello Breyner Andresen . Sylvia Plath . Tarantino . The National . Tim Burton


os outros: a natureza do mal . amigos . dedicatórias . em busca da límpida medida . retalhos e recortes



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...it's full of stars...


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